sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A salvação e o advento do Salvador

“Em 20 de julho de 1969 aconteceu um feito extraordinário para a humanidade: o primeiro astronauta, enviado pelos Estados Unidos da América, pisa em solo lunar. Ao fazê-lo, proferiu uma frase que até hoje ecoa para muitos como símbolo da mais triunfal conquista humana de todos os tempos: ‘É um pequeno passo para o homem, mas um gigantesco salto para a Humanidade’. Orgulhoso pelo grande feito, o então presidente norte-americano Richard Nixon fez o seguinte discurso entusiasmado: ‘Esse é o dia mais importante para a Humanidade – o dia em que o homem pôs os seus pés na lua’.
Mas dentro da Casa Branca, acompanhando aquele feito tremendo e o discurso presidencial, estava o famoso evangelista Billy Graham, que atuou significativamente entre os grandes políticos do mundo, inclusive como conselheiro de muitos presidentes estadunidenses. O evangelista Graham pediu a palavra ao presidente e o corrigiu: ‘Presidente Nixon, o dia mais importante para a Humanidade não foi o dia em que o homem pôs os seus pés na lua, e sim, o dia em que Deus pôs os seus pés na Terra’.

A fé cristã está respaldada neste tripé histórico: nascimento (encarnação), morte e ressurreição de Jesus Cristo. Na verdade, não só a fé cristã, mas o mundo só está de pé dado esses grandiosos feitos, doutro modo há muito já teríamos perecido. A concepção milagrosa de Cristo no ventre da pobre jovem Maria, a morte expiatória de Cristo sob o clamor dos judeus e a injustiça do governo romano, e a sua ressurreição triunfal de entre os mortos, testemunhada pela guarda romana montada à entrada do túmulo, são indubitavelmente os fatos mais importantes que alteraram o curso da Humanidade e que até hoje repercutem como boas novas de Deus para todos os homens em todo mundo. A ida do homem à Lua não alterou muita coisa por aqui; mas a vinda de Jesus Cristo à terra foi a nossa salvação!”(1).
O trecho que você acabou de ler, o qual uso modestamente para a introdução do presente estudo, foi extraído do livro de minha autoria A mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira (Leve, 2016), onde discorro sobre o maravilhoso plano de salvação para toda a humanidade e as sublimes mensagens que Deus está proclamando ao mundo através da cruz de Cristo Jesus.

Encarnação de Cristo: uma verdade inegociável

A Lição da EBD (A obra da salvação) desta semana é sobre um importante tema da fé cristã: a encarnação do Filho de Deus, nosso Salvador. Este tema tem tudo a ver com a proposta geral do trimestre que é um estudo da obra da salvação, e, sem dúvida, o esvaziamento temporário da majestade divina do Filho, a concepção virginal de Cristo no ventre da jovem virgem Maria, sua humilhação e identidade humana, são assuntos cruciais à nossa compreensão geral da maravilhosa obra de salvação.

Desde os tempos apostólicos, a crença na encarnação do Filho de Deus era vital à fé cristã, de tal modo que os que negassem esta convicção, a exemplo dos gnósticos emergentes ainda no primeiro século, eram contados entre os hereges e deveriam sofrer a ruptura de quaisquer relações com a igreja cristã: “…Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo…” (1Jo 4.2,3). Você pode achar que crer na encarnação do Filho de Deus seja algo muito elementar, o bê-a-bá da nossa fé. Está certo.
Mas existiam muitos doutores e sábios nos primeiros séculos, bem como em nossos dias, dispostos a “provar” o contrário (veja, por exemplo, o Docetismo, no segundo século); além do mais, debruçar-nos sobre este assunto produzirá em nós um profundo sentimento de gratidão ao nosso Salvador, que “sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2.6,7). O Filho encarnado é a maior dádiva que Deus poderia dar a humanidade!
A presente Lição terá três objetivos: I. Apresentar como se deu o anúncio do nascimento do Salvador; II. Explicar a respeito da concepção do Salvador; III. Mostrar que o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Capítulos bíblicos que considero muito importantes ao estudo desta semana são: Gênesis 3; Isaías 7 e 9; Miquéias 5; Mateus 1 e 2; Lucas 1 e 2; João 1; Filipenses 2 e 1João 4. Lê-los, acompanhado de bons comentários bíblicos será ainda mais enriquecedor para sua compreensão e aprendizado!

Um novo tabernáculo para Deus

Ainda mesmo no Éden, o próprio Deus fizera o primeiro prenúncio da encarnação do Salvador, quando, dirigindo-se à astuta serpente, disse: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). A semente da serpente apontava para todo império do mal, incluindo demônios e homens ímpios; ao passo que a semente da mulher apontava, a princípio, para Cristo, e consequentemente, para os salvos nele. Mas veja o que Deus está dizendo: aquele que feriria (esmagaria ou destruiria – que são traduções mais adequadas ao hebraico(2)) a cabeça da serpente viria da semente de Eva, numa referência ao mesmo tempo da humanidade de Jesus, como também uma possível referência a concepção milagrosa, sem semente ou gameta masculino, já que foi por obra miraculosa do Espírito Santo que a virgem engravidou (Lc 1.35). Ainda é importante notar: Jesus não “apareceu” em carne, ele não surgiu de repente em Jerusalém já uma criança ou homem adulto, como Adão, sem genealogia. Ele é homem perfeito e tem ascendência que remete ao primeiro casal. Jesus é perfeitamente nosso irmão, e disto não se envergonha (Hb 2.11).
Pode ser que nossos teólogos estejam certos ao dizer que o Filho de Deus já tinha aparecido aos homens antes, no Antigo Testamento, em manifestações teofânicas (ou cristofânicas), como a Abraão, a Josué, a Gideão, dentre outros. Entretanto, estas manifestações são aparecimentos repentinos e de curta duração numa aparência física que pudesse ser percebida por aqueles a quem Deus queria se revelar e numa medida que eles pudessem suportar, já que “homem nenhum verá a minha face, e viverá” (Ex 33.20). Todavia, o corpo humano propriamente Cristo só o obteve na concepção em Maria. Na encarnação, Cristo não “aparece” e depois desaparece; não se “manifesta” e depois se oculta. Na encarnação, segundo nos diz o apóstolo João, o Filho “habitou entre nós” (Jo 1.14), ou como diz o texto grego traduzido ao pé da letra: tabernaculou entre nós (3). Ou seja, Cristo encarnado faz entre nós sua morada, por mais de trinta anos, já não manifestando-se mais no Santíssimo Lugar do Templo judeu, mas manifestando-se cotidianamente no pátio do Templo, nas ruas de Jerusalém, nas regiões pobres da Galiléia, às margens das praias, nos montes, nas sinagogas, nas casas, em volta de mesas, em festas de casamento, e mesmo em meio a cortejos fúnebres! Na encarnação, o Filho não tabernacula apenas no Templo, mas “entre nós” e “em nós” (Jo 14.23). Ele é verdadeiramente “Deus conosco” (Mt 1.23). Que bendito consolo temos daí para as labutas da vida!

Profecia sobre concepção virginal e nascimento de Cristo

1. Concepção virginal

O profeta Isaías, inspirado pelo Espírito de Deus, prenuncia a dádiva do Filho encarnado, concebido por uma virgem: “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel” (Is 7.14). Há questões contextuais neste versículo que não vem ao caso abordar, basta saber que Mateus situa essa promessa na concepção de Jesus, quando cita o sonho em que José, noivo de Maria, foi avisado pelo anjo do Senhor: “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, E chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, Que traduzido é: Deus conosco” (Mt 1.23). O teólogo Derek Kidner, comenta: “O termo virgem é apoiado pela LXX [Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento] como citado em Mateus 1.23. O equivalente mais próximo em português seria ‘moça’. O termo hebraico descreve uma noiva em potencial, em Gênesis 24.43, e a jovem Miriam, em Êxodo 2.8; pressupõe a virgindade, mas não a afirma, e é um termo que não é usado para se referir a ela depois do casamento” (4).
Os cristãos de modo geral, católicos e evangélicos, defendem a virgindade de Maria por ocasião da concepção e nascimento de Jesus; mas estão divididos quanto à continuação da virgindade de Maria após o nascimento de Jesus. Católicos de modo geral defendem como sendo parte essencial da fé a doutrina da virgindade perpétua de Maria, mas os protestantes desde a Reforma, tem se dividido na interpretação dos “irmãos de Jesus” (Mt 12.47; 13.55). Pode causar espanto ao leitor, mas o reformador alemão Martinho Lutero também defendia a virgindade perpétua de Maria; bem como Ulrico Zuinglio, reformador suíço também a defendia. A Confissão de Fé Helvética, adotada pelas Igrejas Reformadas da Suíça, França, Escócia, Hungria, Polônia e outras, também defendia a “sempre virgem Maria” (5). Até mesmo o grande avivalista inglês do século 18, John Wesley, não se desprendeu totalmente desta herança católica, conforme sua própria declaração:
“Creio que Ele se fez homem ligando a natureza humana com a divina numa pessoa; que foi concebido pela operação singular do Espírito Santo e que nasceu da bendita virgem Maria que, tanto antes como depois de o dar à luz, continuou virgem pura e imaculada” (Cartas a um católico romano, 18 de julho de 1749).

Apesar da visão quase romântica que temos dos reformadores e pós-reformadores, precisamos reconhecer seus erros e corrigi-los quando necessário. De maneira geral, as igrejas protestantes atualmente recusam, acertadamente, esta crença na virgindade perpétua de Maria, por três razões muito simples: Deus não exigiu a sua perpetuidade e nenhuma profecia tornava necessária a virgindade perpétua da esposa de José (sem falar que este teria sido um encargo muito pesado para aquele homem, em não poder relacionar-se com sua esposa, quando o sexo é uma benção legítima para ser desfrutada no matrimônio); Maria não se tornaria impura, nem menos santa, por relacionar-se legitimamente com seu marido – Mt 1.20, pois como diz Hebreus: “venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula” (13.4); por último, o fato de a Bíblia citar irmãos e irmãs de Jesus, como nos textos de Mateus 12.47 e 13.55. Claro, os que defendem a virgindade perpétua de Maria, precisaram defender que o termo grego aqui (adelphos) não deve significar “irmão nascido dos mesmos pais”, mas “irmão nascido do mesmo pai” apenas (para dizer que José era viúvo e pai de outros filhos antes de casar com Maria) ou que significa apenas “parente próximo”, para dizer que estes “irmãos” eram, na verdade, primos de Jesus.
2. Nascimento e humanidade
Sobre o nascimento de Cristo, Isaías profetiza: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6). Agora preste atenção nalguns detalhes deste versículo:
2.1. um menino nos nasceu – prenuncia que o Salvador virá em carne, nascerá, e será um menino. Ele experimentará a ingenuidade da infância e a submissão aos homens, neste caso, seus pais (isso é parte do esvaziamento voluntário de Cristo, a kenosis(6)). Lucas nos informa: “…e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito. E sua mãe guardava no seu coração todas estas coisas. E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens” (Lc 2.51,52).
2.2. um filho se nos deu – declara a pré-existência do Filho, que foi dado e não criado. Em seguida, dois dos títulos que lhe são atribuídos reforçam essa ideia: Deus forte e Pai da eternidade. O Filho que nos foi dado, não criado, já era Deus forte e já era Pai da eternidade. Ou seja, ele não teve começo, mas o começo começou nele! “No princípio era o Verbo…”, é a primeira declaração joanina (Jo 1.1). O herege Ario de Alexandria, no Egito (séc. III e IV), apregoava que Cristo foi a primeira criação do Pai, foi adotado como filho (ou seja, ele não é Deus em si mesmo, nem é filho eternamente gerado, mas filho criado e adotado), e em seguida o universo foi criado pelo Filho, e que Cristo deveria ser adorado apenas devido sua proeminência na criação. O Credo de Niceia (séc. IV) refuta e condena esta heresia ariana (7). O famoso, embora leigo, “apóstolo” brasileiro Valdemiro Santiago, já chegou a afirmar no ano de 2012 que Jesus fora “a primeira obra” criada pelo Pai, e que somente o Pai é sempiterno, mas não o filho. O arianismo parece não ter morrido totalmente!
Ainda encontramos profecias no Antigo Testamento, como a de Miquéias que falava da cidade de nascimento do Salvador: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2); e a profecia de Oséias (de dupla aplicação) que falava da estadia do menino Jesus com sua família nas terras do Egito: “Do Egito chamei o meu filho” (Os 11.1; Mt 2.15). Mateus ainda conecta a declaração do profeta Jeremias (31.15) ao infanticídio praticado por Herodes, que buscava matar o menino Jesus (Mt 2.16-18). Não é maravilhoso saber que o Filho de Deus foi criança um dia? Que bendita mensagem para nossas crianças nesta semana tão especial de outubro, em que felicitamos nossos pequeninos pelo Dia das Crianças. Crianças tão assediadas pela perversa cultura de adultização precoce, erotização infantil e ideologia de gênero; crianças que Jesus ama (Lc 18.16,17) e às quais devemos ensinar a cultura do céu e os valores do Reino de Deus, para mantê-las a salvo desta cultura ímpia e imoral!
O primeiro Adão, que é da terra, já entra em cena homem adulto; o segundo Adão, que é do céu, entra em cena um embrião no ventre de Maria, uma criança no colo de sua mãe, um garotinho peregrinando até Jerusalém para aprender no meio dos doutores até alcançar a idade adulta com que cumpriu cabalmente sua missão. Será que Maria nalgum momento teve plena consciência de quem era aquela criança em seus braços? O Grande Eu Sou…

Por que Jesus precisou encarnar?

Primeiro, para criar uma identificação com aqueles sobre quem ele é constituído mediador: nós os homens pecadores. Paulo diz que “há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1Tm 2.5). Assim, homem, ele vive os sentimentos e as experiências humanas mais comuns e mais profundas: fome, sede, sono, tristeza, dor e, a mais temível de todas: a morte. Somente no pecado ele não se faz nosso semelhante, pois ele era o Cordeiro de Deus imaculável! O autor da carta aos Hebreus destaca o propósito de Cristo em vencer a morte na sua carne: “E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hb 2.14,15). Porque Cristo encarnou e venceu definitivamente a morte, ela já não deve nos causar medo!
Segundo, não se deve descartar o caráter exemplar da humilhação de Jesus por ocasião de sua encarnação. Há muito que aprender com aquele que “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo… humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte…” (Fp 2.7,8). O próprio Jesus nos deu grandiosas lições de vida, de temor a Deus e amor ao próximo, mansidão, humildade e paciência. Na noite da Ceia, ele dobra-se diante de seus discípulos, com uma bacia de água e uma toalhinha branca, para lavar-lhes os pés. E assim exorta: “se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.14,15). No texto de Filipenses, Paulo busca impedir que qualquer raiz de orgulho e divisão nasça e cresça entre aqueles irmãos, quando apela: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5).
Até o batismo nas águas era necessário a Jesus, embora ele não tivesse pecados que confessar ou vida errada de que se arrepender. Nem João Batista, seu primo, entendeu de imediato o porquê de Jesus cumprir aquele rito, mas Jesus lhe fez entender: “Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.15). Não se batiza espíritos, nem anjos! Se o batismo era necessário como parte indissociável da justiça de Deus, então Cristo também para isso precisaria encarnar.
Todavia, a sublime missão de Cristo, em sua encarnação, não era nos dá exemplo, não era apenas nos ensinar valores morais ou espirituais. A encarnação de Cristo é parte do programa salvífico de Deus para a humanidade, de tal modo que sem ela seria impossível a justiça de Deus ser satisfeita para salvação dos pecadores. A Declaração de Fé das Assembleias de Deus (2017) resume muito bem os propósitos salvíficos da encarnação do Verbo:
“A encarnação do Senhor Jesus fez-se necessária para satisfazer a justiça de Deus: o pecado entrou no mundo por um homem, Adão; assim, tinha de ser vencido por um homem, Jesus. Em sua natureza humana, Jesus participou de nossa fraqueza física e emocional, mas não de nossa fraqueza moral e espiritual” (8)
O apóstolo Paulo diz que “No corpo da sua carne [Jesus], pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” (Cl 1.22). Sem a encarnação genuína, não haveria morte genuína, nem redenção genuína, nem santificação genuína ou glorificação genuína! Sem o corpo de Cristo, todos gritaríamos para a eternidade: “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24).


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

À Caminho do Testemunho de Uma Caminhada

Tive o privilégio de oficiar os 50 anos de casamento de meus pais no último dia 2 de maio, em Manaus.
No caminho para esse dia—ainda de madrugada no aeroporto de Brasília—ouvi meu filho Lukas comentar o seguinte sobre a importância daquele evento:
“É mais importante que o casamento. É o casamento que deu certo. Eles podem dizer que estão casados. Eles provaram que podem se casar”.
Fiquei pensando durante a viagem de Brasília para lá.
Tantas memórias me vieram ao coração que fiquei trasbordante.
A reflexão imediatamente me remeteu para dois textos bíblicos, ambos de Paulo:
“Combati o bom combate, completei a carreira e guardei a fé”—foi o primeiro que me veio à alma.
“Os casados sejam como se não fossem”—disse ele aos candidatos ao casamento em I Coríntios 7.
O primeiro faz uma leitura retrospectiva de toda uma existência.
O segundo manda existir sem se deixar cristalizar por estados, nem mesmo na conjugalidade, afinal, para Paulo, os dias eram maus e a alma precisava comprar sem possuir, se utilizar sem se deixar dominar e se alegrar como se nada estivesse acontecendo—nem de bom e nem de mal!
Juntei aquelas duas imagens e fiz uma Cronologia Existencial Invertida da vida de meus pais.

Década de 90: a década das dores maiores que o coração.

Foi quando choraram não por si mesmos, mas por aqueles que amam mais que a si mesmos.
Foram perdas, sustos, angustias secretas e dores públicas para as quais eles não tinham explicação a dar.
Foi tempo de silêncio, resignação, re-signação, re-significação, e de procurar o departamento de “achados e perdidos da vida” para, ao final, poder exclamar: “Salvaram-se todos!”.

Década de 80: a década das grandes satisfações.

Todos os filhos encaminhados.
Perfis humanos definidos na família.
Trabalho, e muito, realizado.
Prazeres conquistados no coração.
Tudo isto não sem dores, doenças e achaques—e muitas limitações físicas!

Década de 70: a década da loucura santa.

Eram pulsões incontroláveis.
O mundo tinha que ser salvo de uma vez.
Anjos e demônios presentes no café da manhã, no almoço, no jantar e até no meio da madrugada.
Amigos aos montes e também alguns aproveitadores de boa qualidade no surrupiar.
Muita fraternidade, mas também excessiva invasividade.
Luto—meu irmão morreu—e novos rebentos: nasceram Ciro, Davi (meus filhos daquela década) e Anelise, Lilian e Jonatas (filhos de minha irmã Suely).

Década de 60: a década das metamorfoses.

O coração gelou—digo: o de papai.
A alma se escondeu: refiro-me a de minha mãe.
A voz de Deus contou segredos—a nenhum dos dois, mas a minha vó, mãe velhinha, que ouviu as palavras: “Pede um filho”.
Então o calor dos trópicos celestiais desgelou o inverno de um polo que tinha de vivido e conhecido—do contrário o resultado não seria hoje tão belo.
O impossível chegou, se instalou, não pediu permissão a ninguém e nem se explicou.

Década de 50: a década dos sonhos simples.

Dois amigos—Zé Reis e Raquel—iriam se casar.
Convidaram dois desconhecidos entre si—papai e mamãe—e desse casamento nasceu uma outra união.
Era uma professorinha do interior do Estado entrando para uma família de mestres.
De outra feita, um engenheiro de coração tinha que passar a advogar por profissão.
E foram morar numa pequena casa nos fundos de um casarão—eram pequenas as ambições, mas dali surgiram grandes negócios.
Nasceram-lhes filhos muito diferentes.
E para os filhos eles eram os pais que não se alteravam, pois cresciam junto com as crianças, e não nos impediram de crescer com os adultos e muito menos com a floresta e os animais.
Naquele tempo a grande era virtude era apenas ser digno e muito humano.

Bem, depois dessa Cronologia voltei para hoje.
E hoje?
Pensei outra vez nos dois textos de Paulo.
Realizei o obvio: termina sempre onde começa e começa sempre onde termina.
Somente os casados que foram casados como se não fossem é que combatem o bom combate, completam a carreira e guardam o amor.
Mas e eles?
Ora, quem já tinha vivido a década de 80 com tantas realizações, como poderia imaginar que a seguinte seria um interminável pesadelo?
Mas e eles?
Bem, eles nunca estiveram tão bem, nem tão bonitos, nem tão libertos e muito menos tão abertos, sadios e leves!
Para mim restava a perplexidade do “mestre sala” de Caná da Galieia:
“Todos costumam por primeiro o bom vinho, e quando já beberam fartamente, servem o inferior. Tu, porém, guardaste o bom vinho até agora”.
É somente depois de tudo que se pode dizer que se casou e com quem se casou.
É somente após a vida que se pode enfim celebra-la toda.
À minha mãe sobrava dizer:
“Eu te amei quando te vi
só não sabia que seria como foi:
tantas árvores frondosas pra cuidar,
tantos rios bravos pra acalmar,
tantos filhos diferentes pra criar, sofrer e amar!
Eu te amei quando te vi,
quando de perto te senti,
quando vitorioso me saudaste,
quando quebrado te rejuntaste ante meus aturdidos olhos.
Eu te amei quando te ouvi,
quando me embalaste com a solene poesia de tuas gravidades,
e eu te aliviei de pesos que eu não podia para mim,
mas me fiz forte para te ajudar a poderes para nós.
Assim, meu velho, depois de tudo hoje te digo:
A melhor profecia é a que se cumpriu,
e o melhor a mor é o que permaneceu.”
Agora sim, como disse o Lukas:
“Eles provaram que podem se casar”.
Caio Fábio

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

SOBRE DIVÓRCIO

Nós lemos Mateus 5: 31 e 32 e pensamos nele com nossas categorias ocidentais, posteriores à predominância política do Cristianismo sobre este lado do planeta, impondo não uma nova consciência, mas apenas uma nova Moral.
Todavia, quase nunca levamos em consideração o contexto no qual Jesus disse esta palavra. Naqueles dias, embora a poligamia e a bigamia—tão constantes no Antigo Testamento— ainda existissem, desde o exílio em Babilônia que ela vinha diminuindo—por questões econômicas, como é obvio! Todavia, ainda que ambas não fossem a norma para a maioria, na prática, no entanto, era ainda uma consciência prevalecente.
Prova disso é que em João 8, no episódio da mulher adultera e Jesus, não se apresenta o “homem” com quem essa “adultera”, adulterara. “Ele”, o homem, estava isento das pedradas. Mas a mulher estava lá, seminua ou nua, exposta a todos.
Portanto, quando Jesus diz que a Lei dizia que um homem poderia des-cartar a sua mulher dando-lhe uma carta de divórcio, Ele falava isto a uma assembléia machista, que praticava isto com muita alegria e facilidade. Tudo era motivo para se divorciar. Literalmente, por qualquer motivo, como vemos em Joaquim Jeremias e outros especialistas ( Mt 19:3)
Isto para não falarmos na briga doutrinária que havia, nos dias de Jesus, entre as escolas de Shamai e Hillel em relação ao tema em questão. Era o reino da banalidade relacional.
Nesse caso, o que Jesus diz, levando-se em consideração o “contexto historio”, é basicamente o seguinte:
1) Se, para vocês, a mulher é adúltera quando trai o seu marido, dando-se fisicamente a um homem, todavia, vocês, os homens, cometem muito mais adultério pelo modo “natural” como olham e desejam mulheres (MT 5: 28);
2) Neste mundo onde o homem “descarta” a mulher—ela sem direitos a mesadas e a patrimônio, estigmatizada pela Moral vigente e, praticamente, entregue a sobreviver como pudesse—a única clausula, de permissão ao divorcio era se a esposa traí-se o marido; ou seja: “... em caso de adultério” (5: 32b). Nessa caso, o homem poderia dar a ela carta de repudio e divorcio. Naqueles dias, mulheres não se divorciavam dos homens. Era a Lei.

3) A razão, portanto, tinha a ver com o estigma que a “repudiada”, a divorciada, carregaria, naquela sociedade, daí para frente. Ao homem era permitido—por qualquer motivo—desamparar a esposa, repudiando-a, e, então, depois disto, era-lhe “lícito” escolher outra mulher e seguir adiante com sua vida. Não era sempre bigamia, mas era sempre uma monogamia sucessiva. Ela era extremamente praticada até que Shamai, um rabino, se levantou contra aquela injustiça, discutindo os “motivos justos para dar uma carta de divorcio”, que, à semelhança de Jesus, para ele, também era o adultério.
Todavia, a preocupação era com o estado de desamparo no qual ficava a mulher repudiada-divorciada, pois, para todos, ela passava a ser fadada a nunca mais amar ninguém e nem ter ninguém, apenas porque alguém não a quis mais, por qualquer motivo.
Esta é a razão pela qual Jesus—após denunciar o adultério subjetivo de todos os homens—diz que a preocupação era com expor a mulher a tornar-se adultera (Mt 5: 32c), e, também com “aquele” que, porventura, à ela se ajuntasse, pois, ele também, passaria a ser visto como o marido da repudiada.
Numa sociedade onde o homem tinha todos os privilégios, incluindo o de ter uma segunda esposa caso a pudesse sustentar, descartar a esposa e entrega-la ao mundo com uma letra R, de Repudiada, escrita na testa, e, ainda, esperar que ela vivesse de vento, expunha-a a tornar-se adultera—fosse pela necessidade de ser sustentada por alguém, fosse pela realidade de ter encontrado alguém. Assim, em Mt 5: 27-28, Ele iguala a todos no nível do adultério subjetivo.
Já em Mt 5: 31-32, Ele nos mostra como uma vítima da dureza de coração de um homem—que descarta e não cuida da vida humana que ao seu lado esteve—pode, numa sociedade regida pela Teologia dos Fariseus, ser ainda mais des-graçada.
O “repudio” do homem tornava a mulher, no mínimo, uma “repudiada” e, no caso dela prosseguir com a vida—sem ter que se entregar à mendicância—,a exporia a ser vista, para sempre, como adultera. Dessa forma, Jesus afirma duas coisas: primeira, a seriedade do vinculo entre dois seres humanos numa relação de casamento; e, a segunda, a possibilidade de que a alma humana pudesse se endurecer tanto, que usasse a do outro, e depois, simplesmente a descarta-se, sem cuidado e sem proteção. Em outras palavras: Jesus não entrou na questão da Lei—até Moisés teve mais de uma esposa—, mas na questão da misericórdia, e, sobretudo, no tema da descriminarão Moral do infeliz; e, também no tema da Teologia dos Fariseus e a sua dureza predatória— suas Leis de causa e efeito da infelicidade—, que, naquele caso, era uma Lei animal, que tratava a companheira como lixo.
E por que digo isto?
Por duas razões:
1) Porque é o que vejo no trato de Jesus com as mulheres de todos os tipos de vida durante os Evangelhos. Quase todas elas vinham de vidas infelizes, mas todas foram absolutamente acolhidas, a Samaritana, inclusive, com seu “companheiro”, acerca de quem Jesus disse: “...chama teu marido e vem cá...”
2) Minha leitura da Bíblia, toda ela, está irremediavelmente ligada à única chave hermenêutica que eu creio que é absoluta: “O Verbo se fez carne”—essa é a chave hermenêutica! Logo é no Verbo Encarnado, Jesus, onde vemos o Verbo virar Vida, em todos os sentidos.
Ora, isto nos leva não a ler o que Jesus disse e , para melhor entender o texto, fazermos uma exegese da passagem. Ao contrário: isto nos leva a ler e ouvir o que Jesus disse, e, ver, nos evangelhos, como Ele encarnou aquele Verbo.
Ora, quando fazemos isto, não temos mais o Evangelho que Jesus falou e nós “interpretamos” como bem desejamos; e o Evangelho que Jesus viveu, que nós usamos para nos inspirar na fé na fé. E esquecemos que são naqueles encontros com a vida que cada um de Seus ensinos—literalmente, cada um deles—, teve sua verdadeira interpretação.
Jesus nunca ensinou aquilo que Ele não encarnou, como manifestação da Graça!
A tentativa de fazer exegese das falas de Jesus, e não levar em consideração como Ele tratou as pessoas pelo caminho, é audaciosa, pois, coloca-nos como “os interpretes da Lei”: com a Chave da ciência debaixo do braço, pondo-nos numa posição na qual Jesus pode ser esquizofrenizado pelas nossas doutrinas e Teologias; ou seja: ensinando uma coisa—geralmente legalista em seus conteúdos—, conforme nós “interpretamos” as falas de Jesus; enquanto, também evangelizamos, falando do modo misericordioso como Jesus tratou com amor os pecadores.
O problema é que, na maioria das vezes, o Jesus que encontra pessoas pelo caminho—gente de todo tipo—, não combina com as “interpretações” que fazemos de Suas Palavras.
Quem é que está com problemas? Seria Jesus um “esquizofrênico”?
Seria Ele como os fariseus, que diziam e não faziam?
Ou como os “interpretes da Lei”, que punham fardos pesados sobre os homens que eles nem com o dedo queriam tocar?
Ou nós é que continuamos sofrendo da doença deles?
Responda-me:
Crendo que Jesus é o Verbo encarnado, como você interpreta o que Ele disse?
À luz dos ensinos de nossos interpretes da Lei? Ou, quem sabe, para o seu próprio bem, conforme o Verbo Encarnado em Jesus!
Jesus é a Palavra sendo interpretada aos nossos olhos!
Afinal, o Verbo se fez carne e habitou entre nós... e vimos a Sua Gloria...!

Caio

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Toda violência é ruim?

O problema do Brasil não é a violência, mas a criminalidade. Nem toda violência é ruim. Mas a violência perpetrada pelo criminoso o é, pois ela não tem finalidade virtuosa já que ele está matando para roubar ou simplesmente porque foi contratado para tal.
Não que os meios violentos devam justificar os fins do salvamento, mas se for preciso se prover de tal, que de tal nos provenhamos. Não estou indo contra a Bíblia no que ela diz que devemos “dar a outra face” (para não se permitir dar-se como causa de escândalo aos que perseguissem aos cristãos por causa da fé cristã), pois não estou defendendo uma conduta violenta, mas uma conduta de defesa de si, da família e do que é seu diante de um criminoso “convicto”.

A mesma bíblia diz que as autoridades “portam a espada não por vã razão” (possibilidade de fazer uso da violência para coibir o criminoso), mas utilizá-la, se preciso for. Uma espada, naquela época, era usada para que os mal-intencionados percebessem que, para atacar alguém armado, lhe seria mais trabalhoso, pois a potencial vítima tinha como se defender.
A espada também era usada, quando numa porfia bélica, para ferir é até mesmo matar quem tentava lhe fazer o mesmo. Na época em isso (o que está sob aspas) foi escrito na Bíblia, qualquer um podia portar uma espada (Pedro até usou a sua no momento em que os soldados foram prender Jesus). Jesus não mandou Pedro jogar a espada fora, mas mandou que ele a guardasse, como quem diz: “use-a em circunstância propicia, Pedro”.
O fato de um cidadão ou o Estado reagir a uma ação criminosa e ferir ou mesmo tirar a vida do criminoso não o torna um criminoso também, pois ele não foi o agente provocador da violência que culminou numa tragédia (toda morte em decorrência de uma violência é uma tragédia, mas, se necessária, é uma “virtuosa” tragédia, pois se salvou o que se mostrou ser e agir pelo bem naquele momento).
Bandido bom não é bandido morto. Bandido bom é bandido que acata as chances que tem e muda de vida. Não é por que ele, como diria Rosseau (a quem estou me contrapondo), é uma “vítima” das circunstâncias de sua condição social que vai se prover disso, usando seu poder de decisão, para fazer vítimas de sua “vitimicidade”.

Gospel Prime

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Que tipo de fariseu você é?

Segundo a história os Fariseus surgiram aproximadamente por volta do ano 170 a.C., com a perseguição de Antíoco Epifânio. O helenismo ameaçava invadir a religião que cultuava ao Deus verdadeiro para destruí-la e absorvê-la.
Em consequência disso, formaram-se no seio do povo judeu, iniciando pela classe elevada, duas tendências opostas: uma que rejeitava o helenismo com indomável energia, e outra que aceitava com certa moderação as ideias e influências do paganismo. De certa forma o surgimento dos Fariseus foi de grande valia para a época.
O grande erro deste grupo foi o desvio do propósito inicial. Os partidários da primeira tendência foram, então, chamados de “Perushins” (os separados). Sobre suas práticas exageradas escreveu Marcos:
“E ajuntaram-se a ele os fariseus, e alguns dos escribas que tinham vindo de Jerusalém. E, vendo que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar, os repreendiam. Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar as mãos muitas vezes; E, quando voltam do mercado, se não se lavarem, não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas.” (Mc 7.1-4)
O próprio Talmude (um dos livros básicos da religião judaica, contém a lei oral, a doutrina, a moral e as tradições dos judeus [Surgido da necessidade de complementar a Torá, foi editado em aramaico como um extenso comentário sobre seções da Mixná, reunindo textos do sIII até o sV.] ) quis privar-se do maligno prazer de registrar a atitude ridícula de muitos deles: “ Existem sete tipos de Fariseus”:
  • O que aceita a Lei como uma carga
  • O que age por interesse
  • O que bate a cabeça contra a parede para não ver uma mulher
  • O que age por ostentação
  • O que pergunta qual é a boa obra que deve fazer
  • O que age por temor
  • O que age por amor
É praticamente impossível fazer a leitura acima sem aplicar uma conexão com a espiritualidade dos Fariseus do século XXI.
Nossas igrejas são frequentadas por um grupo que  vai às reuniões não porque entendam ser o mínimo que possam fazer em gratidão por tudo o que receberam de Deus, mas para lá se dirigem contrariadas, amarguradas e oprimidas. Tal qual os Fariseus da época de Jesus são crentes escravos, religiosos e desprovidos da alegria no servir.

Gospel Prime

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

"SEU" MATEUS DA CANA QUEBRADA

Mt. 12: 15-21 (De preferência leia todo o capítulo e também o texto de Isaías mencionado por Mateus)

Mateus está olhando para Jesus. No caminho acontece tudo. Milagres e folhas se misturam na passagem Daquele que é, mas que não pode ser reconhecido: aquilo não era conhecido. Só se abriria por revelação. Mateus vê que as pessoas quando encontravam com Jesus sabiam que tinham encontrado com Deus no homem e o homem em Deus em total plenitude. Afinal, aí não há nenhuma polaridade: Deus não é um pólo e o homem outro. Deus é! e o homem é, Nele! Assim, as pessoas saíam familiarizadas com Deus no homem e o homem em Deus – fosse para o bem, fosse para o mal. Os quebrados, estilhaçados, moídos, triturados, comidos, tragados, enganados, aflitos, inseguros, culpados, incorrigíveis, os aparentemente pedrados, os quase mortos e até os mortos, levantavam-se diante Dele; fosse para o bem, fosse para o mal. Para o bem deles e para o mal daqueles que não gostam de cura.

Mateus percebeu que os piores doentes são os que não gostam de cura. Ele fora vítima deles. Sua profissão de tantos anos – coletor de impostos – não o recomendava a não ser entre os picaretas e os políticos. Havia, sobretudo, os sãos. Os absolutamente certos e os literalmente rígidos. Esses eram sadios e por isto não gostavam de cura. Faziam de tudo para que a bondade de Deus não se espalhasse. Era perigoso. Tiraria o poder de suas mãos. Os tiraria de qualquer centro de gravidade que julgassem possuir. Ninguém se sentia mais ameaçado por Jesus que esse pessoal. Eles mesmos, que haviam sido os mantenedores das doenças dos outros apenas para poderem exercer o poder de sua suposta sanidade. Eles é que odiavam cura, é claro. Cura para eles era sinônimo de clonagem, de cooptação ao ser de um outro como seu modelo divino.

Mateus sabia que Jesus fazia o contrário. “Tal não é assim entre vós...” – ensinava Ele. E demonstrava que tal não era assim no Reino de Deus que Ele mesmo encarnava. Mateus via o Verbo tratando as pessoas e aplicando a Palavra do jeito que aplicava. Para o coletor de impostos Mateus, era apenas uma questão de ler a vida. Jesus era o cumprimento do sonho de todos os profetas e era a realização de todo o bem prometido. Não é por nada... pois é por tudo, que ele recorre a Isaías a fim de descrever o que cabia da Escritura a fim de ilustrar o seu próprio cumprimento: Eis aí o meu Servo... ele não gritará nas praças e não contenderá; não esmaga a cana quebrada e nem apaga a torcida que fumega. No seu nome esperarão os brasileiros, os latino-americanos, os americanos, os russos, os portugueses e os japoneses – e, também, todas as nações da terra, unidas ou não às Nações Unidas – pois Ele será salvação até os confins da terra. No seu nome esperarão até os brasileiros” – teria ele dito assim, se fosse assim que estivesse escrito, apesar de ser isto que está dito para nós hoje naquele texto da Escritura, do mesmo modo que esteve para Mateus.

Mateus não foi literal ao citar Isaías 42:1-4. Apenas disse aos que o leriam aquilo que significou para ele ver o que via, e como aquilo era o cumprimento da própria profecia. Mas não deixou de dizer o que estava dito com o modo como precisava ser dito em seus dias. Isto é ser literal com a Palavra sem ser, necessariamente, literal com o texto. O texto só é sagrado porque é verdade! Portanto, não é a letra que vivifica e não é o espírito que mata. É o contrário. O que interessava é que Mateus via como saíam de diante de Jesus aqueles que em desespero O buscavam. Já tinha visto que Jesus olhava para todos com o mesmo amor e que para todos dirigia a Palavra conforme o coração carecia – nem sempre um agrado, mas sempre o bem. E os milagres se misturavam às folhas de todas as estações e se deixavam plantar, literalmente, em qualquer quintal.

Jesus não veio para contender. A Verdade fala de si e por si mesma. Em verdade se promulgará o direito – diz o mesmo texto em Isaías. Ele veio para todos, mas se deixa especialmente achar pelos membros dos grupos chamados por Mateus e Isaías de Os Cana-Quebrada, Associação das Torcidas-Que-Fumegam e Movimento-da-Verdade-Promulgada-Como-Direito.

Mateus sabia mais do que dava para explicar. Creu e nos ajudou a crer. Tudo o que ele disse acerca de Jesus era verdade.

Este é só o meu jeito de dizer a mesma coisa.

Caio

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O debate é importante?

O meio evangelical nacional tem visto, nos últimos meses, um crescimento significativo de debates. São muitos, em várias frentes. Com “frentes”, refiro-me a grupos, nos quais há sempre os mais dispostos a exercerem seu direito de conversar, opinar, explicar, convencer.
Há quem veja os crescentes debates com maus olhos; pensam que o debate, em si, é algo ruim, pois necessariamente leva à desunião. Particularmente, discordo deste ponto de vista, mas reconheço que há alguns pontos que precisam ser vistos por aqueles que se propõem a um bom e salutar debate.

1 – Debate não é mera tentativa de convencimento.

É claro que aqui me refiro ao debate nos moldes mais nobres, ideais. Em todo o debate, normalmente, tenta-se convencer o(s) interlocutor(es) ou a audiência. Mas, se estamos sinceramente buscando parâmetros verdadeiros, nosso alvo deve ser dialético, e não meramente retórico ou o que é pior, sofístico.
O debate dialético era, digamos, mais “bem visto” entre os gregos, como tarefa filosófica nobre, pois seu objetivo é a busca da verdade através da investigação racional e, obviamente, por meio do diálogo. A retórica por sua vez busca o convencimento, porém, como defenderia o filósofo grego Aristóteles, não pelo convencimento em si, mas como meio e melhor se instrumentalizar a defesa da verdade. Já a sofística, não: aqui, a palavra denota esperteza, jogo de palavras com o intuito de se vencer um debate sem necessariamente ter razão.

2 – Debate não é simples disputa de conhecimentos.

Eis um ponto central para os que gostam de debater: quem pensa em “medir” conhecimento através da prática do debate mostra, de antemão, que não estão prontos para debater. A questão num debate não é e nuca foi “quem sabe mais”, mas se o que é exposto alinha-se melhor ou não à realidade.

Um bom debatedor não sabe tudo, pois isto é impossível. Mas tem convicção (e boas razões) para crer que o que defende é, no mínimo, plausível. Um bom debatedor não está preocupado se não sabe de determinado ponto sobre um assunto que vem à tona num debate; mas mostra maestria em elencar pontos fortes e fracos suscetíveis à discussão, reconhecendo-os tanto na tese que defende quanto na que acusa.

3 – Debate não é uma porta para a carnalidade.

A Bíblia diz que podemos até nos irar, mas não pecar (Ef. 4:26). Isto é muito sério. A divergência de ideias deve ser tratada, sempre, com maturidade, humildade, espírito conciliador. Muitos, por causa de seu mau testemunho (notório ou não), tornam-se uma vergonha para o Evangelho, pois querem posar de polemistas ou apologistas, mas, no mais das vezes, denotam apenas a carnalidade que lhes era latente.
É fácil identificar um debatedor carnal: normalmente, o sarcasmo é sua maior arma; cita outros sem parar (o chamado “argumento da autoridade”, ou ad verecundiam é profuso em sua boca); não é original e o sarcasmo sobre o qual falei, geralmente esconde ignorância e soberba. Fuja desse tipo.

4 – Debate não se resume ao confronto de “opiniões”.

Em grego, “opinião” é doxa, que por sua vez é o contrário de conhecimento. Opinião está no mais baixo âmbito filosófico. É a área das preferências e gostos pessoais, sobre os quais apenas os seus donos têm ingerência. É como debater por causa de times de futebol. Responda sinceramente: você já viu alguém, torcedor, deixar de torcer por determinado time por causa de um debate sobre o tema? Pois é.
As opiniões pessoais são importantes, mas não devem ser confundidas com conhecimento. Muito, mas muito mesmo do que se “debate” no meio evangelical nacional, apesar de às vezes ter uma certa roupagem prolixa, com termos técnicos e certo apelo histórico, é, contudo, muito mais fruto de paixão ideológica do que da atividade exaustiva de se exaurir determinado conteúdo. O que é lamentável.

Gospel Prime