terça-feira, 19 de junho de 2018

Estrada e Caminho

INTRODUÇÃO

Esse é o salmo do peregrino. É o salmo que inspirou muitas gerações de pessoas na terra de Israel que reuniam-se uma vez no ano para irem ao templo adorar a Deus. Esse era o salmo do caminhante, era o salmo da jornada, o salmo da estrada. A medida em que eles iam se aproximando do templo, as alegrias do coração se manifestavam e o salmo era falado como uma jornada do caminho, como uma confissão da estrada de quem queria chegar num lugar da adoração. Nós não somos hoje pessoas do templo, o templo somos nós, não temos nenhuma devoção por pedras, colunas... Somos santuário de Deus, somos habitação de Deus no Espírito. Portanto, a leitura desse salmo já não nos serve como uma inspiração para quem está indo a um lugar de culto; seria de uma pobreza primitiva enorme a gente pensar assim. Mas, é sobretudo uma viagem existencial para esse lugar aonde Deus tem o seu pouso em nós e aonde nós temos o nosso pouso em Deus, aonde a gente se aninha em Deus no caminho.

"Quão amáveis são teus tabernáculos, Senhor dos Exércitos!
A minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo!
O pardal encontrou casa, e a andorinha, ninho para si, onde acolha os seus filhotes;
eu, os teus altares, Senhor dos Exércitos, Rei meu e Deus meu!
Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvam-te perpetuamente.
Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração se encontram os caminhos aplanados, o qual, passando pelo vale árido, faz dele um manancial; de bênçãos o cobre a primeira chuva.
Vão indo de força em força; cada um deles aparece diante de Deus em Sião. Senhor, Deus dos Exércitos, escuta-me a oração; presta ouvidos, ó Deus de Jacó! Olha, ó Deus, escudo nosso, e contempla o rosto do teu ungido.
Pois um dia nos teus átrios vale mais que mil; prefiro estar à porta da casa do meu Deus, a permanecer nas tendas da perversidade. Porque o Senhor Deus é sol e escudo; o Senhor dá graça e glória; nenhum bem sonega aos que andam retamente.
Ó Senhor dos Exércitos, feliz o homem que em ti confia."

A GRANDE QUESTÃO DO CAMINHO, É COMO VOCÊ ANDA NO CAMINHO.

A gente costuma associar a vida a uma estrada... Há aqueles jargões cansativos que toda hora nos acomete do tipo: na estrada da vida. E é, sem dúvida alguma, algo útil para nós, pensar que a vida é alguma coisa que se assemelha a uma estrada. A imagem da estrada é útil para entendermos a idéia do caminho. É útil porque aponta numa direção, numa via, e é útil porque há um caminho na estrada, mas não há uma estrada no caminho. Ou seja, a imagem da estrada me remete para o fato de que estou andando na direção de algum lugar, isso me é útil porque na vida não existe essa opção de não se estar andando. Não existe essa chance de não ser e de não ir. De outro lado, essa imagem da estrada é útil para nós porque nos mostra isso.
No caminho de Deus que a gente anda, não existe uma estrada fixa, de modo algum. Na mente da gente, na maioria das vezes, quando se pensa em andar com Deus, o que se apresenta é uma idéia de uma estrada fixa. Aí alguém chega e diz assim: "Jesus é o caminho". Aí o sujeito imagina Jesus como sendo a BR-1 de Deus, um caminho fixo. Aí você diz: "Como é esse caminho?". Então a pessoa te apresenta o manual de doutrinas, e você aprende aquelas doutrinas. Chega até o ponto de pensar que Deus não te ouviu, se você não mencionar a Trindade na oração: "Pai eu te peço em nome do teu Filho, no poder do Espírito Santo". Se não usar as três nomenclaturas, Deus ficou chateado. Já vi gente ser interrompida ou, após uma oração, receber admoestação de alguém que disse: "Escuta, você não falou em nome de Jesus". Porque se você não completar o pacote da estrada com todas as sinalizações dela, parece que você não está indo a lugar nenhum.
Nesse sentido, a imagem da estrada não nos ajuda, porque nós não estamos caminhando num caminho fixo. Ele disse: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida". Não há fixidez, o que há é movimento na Verdade que conduz a gente na direção da Vida sempre. A estrada física conforme eu lhes disse é fixa. O caminho espiritual, por seu turno, é vivo e não é fixo. No caminho espiritual não existe fixidez da estrada, ou seja, o modo de caminhar e ver a estrada espiritualmente muda o caminhante e muda a estrada. Numa estrada física, fixa, não interessa como o caminhante caminha, a estrada é a mesma. Ele pode caminhar de maneira apressada, ou lenta, agitada, angustiada, calma, contemplativa, olhando em volta ou de maneira completamente alienada, a estrada é a mesma... Ele pode botar no automático e deixar ir. No mundo espiritual, no entanto, não é assim, não existe absolutamente nenhum chão fixo, por isso é que o justo vive pela fé, pisa no chão da fé e sabe sobretudo isto: o modo de caminhar e ver a estrada espiritualmente, muda o caminhante e muda a estrada. A estrada, acerca da qual a gente está falando hoje, é a existência de cada um de nós. Cada um de nós está numa estrada. 

COMO É QUE A GENTE ESTÁ CAMINHANDO NESSA ESTRADA?

A estrada é chamada à existência, conforme o caminho do caminhante.

Isso que é extraordinário, porque a minha estrada não existe por si só, ela é chamada à existência conforme o meu caminhar. A estrada é conforme ela é andada, essa que é a verdade! Nesse sentido, a estrada física-fixa fica pobre para ilustrar o caminho espiritual. A estrada física não muda com os caminhantes, ela permanece a mesma. Mas a estrada espiritual é feita pelo andar do caminhante, é produzida pelos teus pés. Por isso não se pode apenas dizer para alguém: "Olha só, vê ali, Jesus é o caminho, anda nele". Porque isso não vai significar absolutamente nada para pessoa, a menos que a pessoa ande e experimente. Nós, cristãos, temos uma mentalidade religiosa que nos faz pensar em Jesus como Caminho relacionado a alguma coisa que se assemelha a uma estrada física e fixa. Mas não é. E aí é que está o engano, e é aí que as coisas vão ficando pedradas dentro de nós. Por que a gente fica pensando que pela entrada na igreja, pela via do batismo, pelo aprendizado dos nossos jargões, dos nossos chavões, pela capacidade que a gente tem de papagaiar e repetir coisas que a gente ouve, ou simplesmente, porque nós fomos batizados e temos o nome arrolado num rol de membros de uma igreja ou participamos de determinadas formas de culto com certa regularidade e nos dizemos cristãos, nós somos de Jesus. E não é. Não existe fixidez no caminho de Cristo a menos que você ande nele. Não é possível você simplesmente dizer: eu sou de Jesus; se você não anda no Caminho.

Essa mentalidade religiosa é que pensa no caminho de Jesus como se fosse uma estrada e que a gente pode botar o pé nela e andar do jeito que quiser. No caso da estrada, se a gente for andando, dado o tempo e o espaço, a gente chega lá. Todavia, o caminho espiritual não é assim. Você pode ter tido todas as informações que lhe façam pensar que Jesus é o Caminho, mas se você não andar conforme o Caminho, você não está no Caminho. E é aí que o bicho pega dentro de nós. O interessante é que a estrada física, como eu disse, não muda com os caminhantes, mas a estrada espiritual é feita pelo caminhante.

E aí eu queria que você pensasse comigo no seguinte: Lembra da parábola do bom samaritano? Ela ilustra perfeitamente o que estou querendo dizer, antes de chegar no salmo. O que a gente tem ali é um caminho, uma estrada, que ia de Jerusalém para Jericó... mesma estrada... está fixa lá até hoje. Você pode fazer o caminho romano antigo dos dias de Jesus até os dias de hoje, ela esta lá, com pedras daquele tempo, com cenários que não mudaram, uma estrada. Aí Jesus disse que, naquela estrada aconteceu uma coisa que envolveu cinco pessoas. Uma mesma estrada, cinco caminhos diferentes, uma mesma estrada que foi alterada pelo caminhar dos caminhantes. Um mesmo chão que virou chão diferente de acordo com a diferença da caminhada de cada um. O primeiro indivíduo que a gente encontra naquela estrada é um homem honesto, que saiu de casa e foi trabalhar. E no caminho para levantar o sustento para a vida, uma tragédia o acometeu. E ele foi deixado - largado, caído, assaltado, ferido, roubado, depravado e privado dos seus bens e do que tinha - ali abandonado. Caminho de um homem honesto roubado e largado na estrada. Tem um segundo homem nessa história, nessa estrada, é aquele que encontra o honesto que vem andando, querendo levantar o sustento para levar para casa e o assalta. Mesma estrada, um segundo caminho, caminho de violência, de expropriação, de covardia, de aproveitamento, de roubo, de engano. Mesma estrada, um homem honesto caído, um assaltante que se aproveitou da vida dele, e fez o seu próprio caminho. Aí passa uma terceira figura, um sacerdote, mesma estrada um terceiro caminho. O sacerdote vem e olha o homem, passa de largo, segue o seu caminho, caminho da indiferença, o caminho da incapacidade de se solidarizar, o caminho daquele que tem a sua agenda tão definida, que não tem espaço para qualquer parada. Esse é, sobretudo, o indivíduo que achava que a finalidade de cultuar a Deus num lugar sagrado, cumprindo uma liturgia, lhe era mais importante do que a parada para exercer a misericórdia com aquele que estava ali deitado. Uma mesma estrada, um outro caminho. Aí tem um quarto indivíduo que passa na mesma estrada, um levita. Ele viu o sacerdote passar e não fazer nada, e não fez nada também. Assumiu o caminho da omissão homicida, largou o indivíduo, fez que não viu, alienou-se, ligou o botão do auto-engano e se foi, insensível e impermeável. Aí vem um quinto indivíduo. Mesma estrada, um quinto caminho. Era um samaritano considerado herege pelos judeus, abominado pelo sacerdote e pelo levita. Mas ele passa e ele olha, e ele vê e ele se abaixa, ele socorre, ele cuida, ele pensa as feridas, trata delas, derrama sobre elas óleo e vinho. Cuida do indivíduo e o leva e o coloca numa estalagem e diz para o estalajadeiro: "Eu estou deixando aqui dinheiro, e se não for o suficiente, bota tudo na minha conta, porque quando eu passar de volta eu vou quitar tudo". A estrada para o primeiro homem era um meio de vida e ele caiu nela. Para o segundo homem era um meio de se aproveitar dos recursos do outro, era o caminho do aproveitamento e do engano. Para o terceiro homem, o sacerdote, era apenas uma estrada banal, aonde o que quer que acontecesse não lhe dizia respeito, porque ele era um desses indivíduos que se deslocava de um ponto para o outro e o que acontece no meio para ele não existe, ele é indiferente à vida. O outro é omisso, ele sempre olha para quem ele acha que lhe é superior na hierarquia, e diz: "Se ele não fez, porque que eu tenho que fazer". E há um aqui, para quem o caminho é o lugar de misericórdia, é o lugar onde a graça pode se manifestar e aonde o amor de Deus pode ser encarnado. Uma única estrada com caminhos diferentes. Isso nos ajuda entender e a discernir uma coisa fundamental para nós hoje: O caminho é chamado à existência pelo modo como eu ando.

Nós estamos todos aqui reunidos em Brasília, no Hotel Fenícia, cada um veio de casa, e eu não sei o que vocês deixaram em casa. Mas eu sei uma coisa, que ainda que a vida seja completamente idêntica para nós, nós todos temos diferentes caminhos de vida. Você olha em volta e você vê pessoas tendo as mesmas oportunidades, respondendo a elas de modo completamente distinto, e vê pessoas não tendo oportunidades e respondendo a essas não-oportunidades de modo também completamente distinto. Anteontem, eu recebi uma carta quando eu ia chegando aqui. Um rapaz extremamente discreto me deu essa cartinha e falou: "Por favor leia, mas leia, leia mesmo". Eu já estava atrasado, entrando, e só dei um sorriso para ele e botei a carta no bolso. E a carta dele está aqui. Olha só como uma estrada que podia ser miserável se transforma num caminho de vida, por causa do pé de quem pisa, de como pisa, de como vê, de como enxerga, de como interpreta e de como chama coisa a existência para sua própria vida. "Estou lhe escrevendo essa breve carta a fim de externar o quanto sou grato a Deus pela sua vida, gostaria muito de um dia poder compartilhar com você de maneira mais detalhada minha caminhada. Pude saber quem era o meu pai biológico e conhecê-lo, foi uma experiência libertadora quanto a rejeição que tenho por parte do meu verdadeiro pai humano. Meu pai tem, o primeiro deles, a saúde regular apesar da doença e minha mãe nunca pegou uma gripe sequer por causa do HIV, isso é motivo de alegria. Deus tem feito muito em mim e o sonho que tenho como oração diante Dele é que eu me veja pacificado, fazendo de minha própria vida uma mensagem, mesmo que doa, assim como doeu aos profetas do Antigo Testamento. E assim como sei que tem doído em você. Mais uma vez muito obrigado Caio".

Agora, pense em você. Eu faço atendimento de pessoas, e às vezes, a vontade que me dá é dar uma surra no cara. Tem pai em casa, mãe em casa, tudo bem, tudo certo, tudo legal, trabalho, emprego, saúde... Aí, há complexo para tudo que é lado, quanto mais a vida vai melhorando, mais complexificadas as pessoas vão ficando, mais cheias de manias. Lá na minha terra no Amazonas, nas barrancas dos rios, não existe depressão, o cara tem que cuidar de comer o pão, ralar mandioca, pescar de sol a sol, não tem tempo para se deprimir. Ou ele sai para trabalhar ou ele não come. Mas entre nós é diferente. A vida vai ficando mais complexa, a luxúria começa a habitar a alma, se instala no espírito como insatisfação crônica, e aí não interessa o que o indivíduo tem na estrada, a estrada pode ser a favor dele, pode ser ladeira abaixo, pode ser pastos verdejantes, pode ser como for. Aonde, ele puser o pé a estrada vai mudar, porque ele chama a existência o seu próprio caminho. Agora, você tem aqui, um cara com tudo para não estar se sentindo grato, para estar pedindo aconselhamento. Mas, ele chamou a existência um outro caminho, apesar da estrada ter sido perversa. A estrada foi horrível, mas o caminho está sendo lindo. A mesma estrada, a mesma vida, o mesmo chão, a mesma existência sob o mesmo sol, cercados pelas mesmas circunstâncias, caminhos diferentes. Porque o caminho está dentro de mim, o caminho está dentro de você. Isso foi só uma introdução para a gente chegar no salmo (risos). Só que eu prometo que eu serei mais rápido do que nunca.

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Quando a gente olha para o Salmo 84, vê que ele nos dá esse referencial, de como é que a gente - andando na estrada, qualquer estrada, na estrada comum, na estrada de todos - pode ir tecendo nosso próprio caminho.

COMO FAZER NOSSO CAMINHO NA ESTRADA?

1- Em primeiro lugar, ele diz que isso acontece quando eu carrego meu ser enternecido Ter um ser enternecido é a primeira coisa. Gente amargurada, vai pisar em chão de amargura, qualquer que seja o caminho. O salmo fala de um coração enternecido. "Quão amáveis são teus tabernáculos, a minha alma suspira e desfalece", ele está apaixonado, "o meu coração e minha carne exultam pelo Deus vivo". O que você tem aqui, existencialmente falando, é um ser enternecido por Deus.

2- E, em segundo lugar, o salmo ensina que qualquer que seja a estrada pode virar caminho bom e caminho de Deus, se eu ando com a segurança de quem, se sabe, sendo capaz de encontrar pouso, refúgio, agasalho, apenas em Deus. Essa carta, que eu li hoje aqui, é de um indivíduo, que com doze anos disse que foi visitado por uma plenitude que ele não sabia nem qual era. Depois falou em línguas, ele disse: "O menor dos dons, e eu não achava que nem era crente o suficiente para receber aquilo, por causa da mentalidade de causa e efeito, de legalismo". Mas Deus violou o legalismo da criança, e derramou a graça dele sobre ela, razão pela qual hoje aos 24 anos de idade, a estrada é perversa, mas o caminho dele é bom. Olha só o que diz o verso

3: "O pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si, eu encontrei os teus altares Senhor dos Exércitos". Essa segurança de quem pousa no ninho de Deus, Deus é meu pouso. Boa parte da razão pelo qual a estrada se torna insuportável, é porque a gente vive fantasiando, e criando e projetando, e imaginando e elocubrando coisas e cenários e situações que não são reais. E a gente faz sempre isso para o lado de fora, a vida só nos é boa se ela for pintada com um cenário exterior que nos agrade. E quando isso acontece na maioria das vezes, a gente vem a descobrir que o mundo pode estar pintado de paraísos, se você não carregar no peito o caminho da vida, tudo vai perecer e desvanecer diante de você. O coração encontra significado no caminho quando ele diz para si mesmo:"Eu não tenho bem nenhum senão a Ti Senhor. Tu és meu pouso". Quando Deus é meu pouso, quando Nele eu tenho meu tesouro, o meu refugio, o meu ninho, o meu agasalho, aí nada me faltará. Quando eu acho que as coisas que me faltam, me precisam ser dadas para que eu me sinta satisfeito, eu posso ter todas as coisas e jamais estarei satisfeito. No entanto, no dia em que meu coração estiver enternecido por Deus e que todo meu sentido de segurança, de agasalho, de carinho, de conforto, de aconchego estiver Nele, não importa qual seja a estrada, vai virar um caminho de vida. 

4 - Mais do que isso, o salmo diz que a estrada se transforma num caminho de vida quando eu carrego dentro de mim um louvor existencial na casa do meu ser. Olha só que diz o verso 4: "Bem-aventurado Senhor os que habitam em tua casa, louvam-te perpetuamente". Lá no Velho Testamento, eu disse que era um caminho na direção do templo, hoje o templo está aqui. E é um chamado para um caminhar existencial de contentamento, aonde a gente olha a vida com outros olhos e aí qualquer estrada vai virar caminho de vida. 

5 - E além disso, qualquer estrada vira caminho de vida, quando eu levo em mim a atitude de quem transforma vales áridos em mananciais. Olha os versos 5 e 6: "Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração se encontram os caminhos aplanados, o qual passando pelo vale árido faz dele um manancial, de bençãos o cobre a primeira chuva". Esse vale árido, lá no texto hebraico é chamado de vale de Baca, uma das alusões a ele está lá no livro de Juízes, quando se diz que o povo chorou em Boquim, depois que tinham pecado contra Deus e o anjo do Senhor veio e falou com eles face a face e eles choraram muito e chamaram aquele lugar de Boquim. É daí que vem a derivação para o Baca. Ele diz que bem-aventurado é aquele que passando pelo vale de Baca faz dele um manancial. ‘Vale de Baca’ era o vale de lágrimas, é o lugar aonde os chorões cresciam e crescem. Até hoje das imediações de Jerusalém, quando você chega no vale de Efraim, você ainda vê uma quantidade enorme de salgueiros e de chorões e também de árvores que derramam uma resina, daí o nome ter sido vale das lágrimas também, tanto por causa da ocorrência no livro de Juízes, como também por causa desse significado vegetal de um lugar aonde as plantas choram. O caminho para o templo passa por ali, que é também vale dos gigantes, vale de Efraim. E se diz: Bem-aventurado é homem que passando pelo vale de Baca, o vale árido, faz dele um manancial, de bençãos o cobre as primeiras chuvas. Mesma estrada, mas o caminho pode ser diferente. Estou dizendo isto porque eu fico chocado com o fato de que todos os dias eu ouço gente dizendo que é de Jesus e que está no caminho, mas você olha para vida do indivíduo... E isso não tem nada haver com ter, com possuir, com adquirir, com crescer do ponto de vista material. Tudo isso é ‘bobajada’ que vem sendo ensinada por nós e para nós nas ultimas décadas. Todo essas coisas tem o seu lugar mínimo e Jesus disse que se nós nos atrelarmos muito a elas, corremos o risco de perder a alma e o coração. Elas estão ao nosso serviço e não nós serviço delas, e muito menos tendo-as como bens do nosso ser. Fazer isso é caminho de destruição, mas eu fico vendo as pessoas dizendo: eu tenho Jesus, eu sou alguém que crê nele. Mas como alguém disse hoje de manhã na hora do almoço: mas a gente não vê os resultados, não aparece nenhum resultado. Andar no caminho tem que produzir resultado. Se eu não puder ser de Jesus e na hora de passar no vale árido, no vale de Baca, no vale de lágrimas, transforma-lo num manancial, que fé é essa que me anima? Que caminho é este? Se eu não puder enfrentar a dor, a perda, a lágrima, com um bálsamo da Graça de Deus. Se eu não puder ter dentro do coração: a visão, a imagem, a fé, a certeza, a esperança de que eu posso cavar poços no deserto, porque Deus na sua Graça vai enchê-los, vai chover sobre eles, a minha estrada vai ser sempre uma estrada de morte, de amargura, de frustração, de decepção, de perda, nunca será caminho de vida, jamais. 

6 - A estrada vira caminho de vida também, quando eu levo em mim a consciência da mutualidade como mandamento da jornada. Ou seja, eu não estou andando só, eu preciso de você, e você de mim, é nessa troca que a gente vai. Subitamente o texto passa a ser plural no verso 7, e diz: "Vão indo de força em força, cada um deles aparece diante de Deus em Sião". É um ajudando o outro. Nesse caminho, infelizmente, o que a gente mais encontra é um passando a perna no outro, julgando o outro, medindo o outro, avaliando o outro, por isso que não é caminho, é só estrada. O que a gente precisa admitir é que a maioria de nós não está no caminho, a gente está na estrada da religião, e na estrada da religião é assim olho aberto. Conforme Jesus disse: símplices como as pombas e prudentes como as serpentes, porque tem fariseu na reta. Religião não te oferece um caminho, te oferece uma estrada e é bom você ser esperto. Agora nós estamos falando de caminho, e no caminho “um ao outro ajudou e ao seu próximo disse: Sê forte!” No caminho um levanta o outro. No caminho a gente não quer saber quem é o indivíduo caído, a gente só quer saber que ele está caído. No caminho o samaritano é o herói da história do amor fraternal. E ele não faz perguntas. No caminho não existe discussão religiosa, no caminho ninguém diz: "Você aceita Jesus antes de eu lhe fazer este bem?". No caminho ninguém diz: "Os assaltantes o assaltaram porque você não estava com o anjo do Senhor acampado ao seu redor". No caminho ninguém diz: "Olha se você fizesse a confissão positiva e dissesse: Eu declaro bandido, tu estás amarrado. Ele não teria te assaltado". No caminho a gente levanta, a gente se dobra, a gente cuida, a gente não faz perguntas, a gente carrega, a gente leva. No caminho não tem proselitismo, não tem prosa, não tem conversa fiada, tem ação, tem amor, tem misericórdia, tem graça, tem vida, tem gesto. A maioria de nós está na estrada da religião cristã, poucos de nós estamos andando no caminho de Jesus, e é só quando nos dermos conta disso que temos alguma chance de ser salvo da estrada, para poder, no chão da vida, ver o caminho mudar debaixo de nossos pés. Porque é o caminho da fé que chama o próprio caminho da vida à existência para nós. 

7 - E ainda, a estrada vira caminho, quando a gente leva consigo a certeza, de que há o Deus de poder na nossa vida e de graça nesse caminho. Os versos 8 e 9 fazem essa evocação dessas duas realidades de Deus: Senhor Deus dos Exércitos, dos Exércitos, do poder, escuta minha oração, presta ouvidos, ó Deus de Jacó - do cara ambíguo, o Deus do ‘vermezinho’, o Deus do homem que tem luz e que tem sombras, o indivíduo que carrega todas as dualidades da vida. No caminho, eu sei que eu conto com essa assistência: há poder e há graça. Isso não é retórica, isso é fato. E bem-aventurado é aquele que crê nisso e toma posse disso. 

8 - E a estrada seja ela qual for, vira caminho de vida, se eu ando com a consciência de que o que vale na vida não é quantidade, mas é qualidade. Eu achei tão bonitinho quando ele disse: "Passei aqui no concurso público e agora eu posso manter a mim mesmo". “Manter a mim mesmo!” Nós estamos tão empedernidos que a gente não consegue mais nem ter a sensibilidade de discernir a benção que significa manter a si mesmo. Comer o pão com dignidade, beber com dignidade. A gente acha que se for de Deus uma mansão nos aguarda no lago. Se você tiver aleluia! Convide os irmãos, me chame para ir lá eu vou com muita alegria. Mas pelo amor de Deus, não faça disso seu sonho de consumo. Paulo disse: "Tendo com que comer e beber, e vestir, e viver com dignidade, sejamos gratos". Bela essa singeleza: Deus me deu os meios de poder manter a mim mesmo. Essa gratidão muda todo o cenário no caminho. Quem não consegue olhar para vida com contentamento, jamais vai se contentar com coisa alguma na vida. "Eu aprendi a viver contente em toda e qualquer situação, tanto sei estar humilhado como ser honrado, tenho experiência de tudo, tanto de abundância quanto de escassez. Tudo posso Naquele que me fortalece". O que este cara está dizendo, é que tanto faz a cara da estrada, ele faz o caminho com contentamento no coração. O verso 10 nos diz isso: "Pois um dia nos teus átrios, vale mais do que mil". Qualidade vale mais do que quantidade. Prefiro estar a porta da casa do meu Deus, a permanecer nas tendas da perversidade. 

9 - E por último, a estrada se transforma no bom caminho quando eu ando com a certeza de que Deus é a luz do meu caminho, é o escudo, é a proteção da minha jornada. E que Nele eu posso confiar sem duvidar, porque Ele não sonega sua graça a mim, nem a ninguém. E a provisão de Deus para mim é sempre: bem. Olha só os versos 11 e 12: "Porque o Senhor Deus é sol". Sol, o Senhor Deus é sol. Você vai andar nesse caminho seja qual for a estrada, pode ter certeza alguns vão dizer: não estou vendo nada. Mas se você estiver andando no caminho conforme aquele que faz o seu caminho pisando no chão da graça e da misericórdia, esse vai dizer: "O Senhor Deus é sol e escudo, o Senhor dá graça e glória, nenhum bem sonega aos que andam retamente. Ó Senhor dos Exércitos, feliz o homem que em Ti confia".

CONCLUSÃO

Eu falei tudo isso apenas para falar o que vou dizer agora, e se você não ouvir o que eu vou dizer agora, não interessa o quanto você ouviu do que eu disse antes. O que eu quero te dizer com o meu coração mais amigo, mais irmão, é que a maioria de nós, apenas existe na estrada da religião. Para maioria de nós, Jesus é o líder da religião cristã. Por isso a gente não devia nem ficar chateado quando ele é colocado naquela lista dos 100 mais. Eu vejo os crentes chateados: botaram Jesus na lista dos 100 mais, das 100 maiores personalidades da civilização humana. Eu digo: bem feito, vocês é que fizeram dele o líder do cristianismo. Então ele é colega de Maomé, de Buda, de Confúcio, de Zoroastro, de Kardec, ou de qualquer outro líder que apareça por aí. Esse é o Jesus da estrada, esse é o Jesus que a gente oferece num catecismo, que a gente dá num livrinho de discipulado. (Acho engraçado essa história de discipulado. O que que você está fazendo? "Discipulado". O que é isso? "Eu me reúno de segunda, quarta e sexta, com uma irmãzinha que abre aquele manual que o pastor escreveu, mal escrito. Na maioria das vezes, ele não sabe nem o que está acontecendo, ele copiou de algum americano, que é mestre em fazer receita. Porque os Estados Unidos foram os que desenvolveram essa fé de liquidificador, de manual eletrônico: quatros passos para salvação, doze para prosperidade, sete para pacificação, é tudo assim. É a fé da estrada. "Curva perigosa". "Chão derrapante". "Posto de gasolina a 30 km": é o congresso para qual o indivíduo vai. "Fast-food" é o culto. "Shopping a direita": são algumas igrejas que só vendem fetiche. Aí o cara fica pensando que isso é andar com Jesus. Discipulado... Onde é que se já viu discipulado ser 12 lições, 24, 320. Jesus disse “segue-me pela vida”, gente. Discipulado é aprendendo, quebrando a cara, arrebentando dente, levantando, socorrendo o caído que não tem nome, sendo socorrido na hora que você não esperou que ia cair. É aprendendo...) O Caminho gera Verdade, e a Verdade acontece na Vida. Não é nenhum outro manual. O caminho de Jesus é na vida. Discípulos de Jesus são formados não em cursos, mas no curso da existência.

A maioria de nós ainda está na estrada da religião. O convite de Jesus é para você vir para o caminho da vida. E aí você vai descobrir que a estrada é mesma, que a vida é perversa, que a existência é absurda, que há todas as razões para ser nauseante e insuportável; que não há justiça mesmo, que as injustiças grassam, que o trabalhador pode sair para trabalhar e ser assaltado, o assaltante pode estar o tempo todo de olho simplesmente para ver a melhor hora de te tomar tudo. É o caminho dele, na estrada que é tua. O sacerdote pode passar e dizer: ‘Esse aí já não tem mais o que dar, se ele estivesse pelo menos rico, eu iria ajudar para ver se ele dava uma oferta lá na sinagoga.’ Aí vem o levita, "Eu sou discípulo do sacerdote", ele diz. "O sacerdote não fez nada, eu não vou fazer nada também, esse aqui não é o meu caminho". Ele pode até espiritualizar: "Não é a minha vocação". Está tudo tão esquizofrenizado, que o cara diz: "Não, o Senhor me chamou para interceder, eu vou andando pelo caminho, intercedendo por ele, que o Senhor mande alguém que cuide dele". Ai a gente fica achando, que nós somos os bons desta vida. E Deus ironicamente, Jesus de maneira irônica e caustica, elegeu para ser o herói do caminho, o anti-herói da nossa estrada. O samaritano, o herege, é o anti-herói da estrada da religião, e é o herói do caminho da vida. Hoje o que eu queria é que você fizesse uma decisão: se você quer continuar a ser um cara da estrada ou se você quer ser do caminho. Não há nenhuma promessa de que o mundo vai mudar, Jesus disse: "No mundo tereis aflições". A profecia está feita. "Mas tende bom ânimo, eu venci mundo".

O milagre é que a estrada pode ser a mesma, mas o caminho será diferente. Porque você vai chamar o caminho à existência, conforme você pisa no chão da vida. Acaba aqui também a lamúria, o queixume. "Ai meu Deus porque que a vida foi tão madrasta para mim, quanta injustiça que eu sofro, logo eu que sou essa mulher devota, e santificada, que me preservo para o Senhor e só encontro canalha".

Minha querida na estrada está cheio de canalha. Por que você não chama a existência o seu caminho, pisando de outra forma, olhando de outro modo, discernindo por outra perspectiva, entendo a si mesmo e aquilo que significa valor para você de outra forma? Hoje eu queria em nome do Senhor Jesus, convidar você a dizer: "Senhor, a estrada é comum para todos nós, ajuda-me a fazer o caminha da vida. E eu não quero ser um indivíduo da estrada religião que é física e é fixa. Eu quero caminhar no caminho da vida e da verdade em Jesus". Porque o caminho muda, conforme eu mudo no caminho, e o meu caminho vai mudar, conforme eu olho o caminho mudado. Bem-aventurado é o homem que passa vale árido e faz dele um manancial. Ele carrega no coração os caminhos aplanados. O caminho só muda do lado de fora, quando ele muda do lado de dentro. Não existe nenhum caminho do lado de fora que vai lhe ser bom, a menos que você carregue um bom caminho no coração.

Esqueça a Jesus como estrada doutrinária e fixa. Ande no caminho vivo, onde o que vale é o seu modo de caminhar. Como é que você tem caminhado? O que vale é o seu modo de caminhar. É só o que vale, meu querido, é o seu modo de caminhar.

A gente fica pensando que o que faz diferença é o QI. Nós somos muito bobos. Os seres mais maravilhosos que eu conheço chegam a ser quase estúpidos do ponto de vista do QI. São os Forrest Gump que estão por aí, que podem simplesmente dizer: olha, eu não sei muita coisa, mas eu sei o que é amar. O que importa é o seu modo de caminhar. A gente fica invejando o caminho dos perversos, dos malfeitores, fica com dor de cotovelo porque o cara é ladrão. "Ó Senhor porque Tu não me visita com a prosperidade do fulano". Você sabe quem é o fulano? Ele é o assaltante da estrada, meu amigo. Nessa estrada se você não tiver opção, se você não puder ser o bom Samaritano, peça a Deus para ser o roubado. Sério! Se você não puder ser o bom Samaritano, só não seja o bom Samaritano se você for o roubado. Porque ainda está em mil vezes melhor situação do que o sacerdote, o levita e o ladrão. Mas tem gente pedindo a Deus a benção de ser o ladrão. Quando eu fico vendo, de quem que as pessoas tem inveja, elas tem inveja do ladrão, do ladrão religioso, do ladrão político, do ladrão em vários lugares, em várias situações da vida. Ladrão existencial. Porque o modo do caminho que você ambiciona é o modo da morte. Tem gente que ambiciona o caminho do sacerdote, é aquele cara tão imponente. O sonho de consumo de alguns pastores é andarem cercados de 5 seguranças. "Olha que maravilha, tenho um carro blindado". Você pode imaginar um negócio desse, um homem de Deus que sonha em ter um carro blindado. O que eu já vi e ouvi de pastores dizendo assim: "O Senhor tem nos abençoado muito, a nossa igreja cresceu muito, cresceu tanto que inclusive eu tive que contratar 5 seguranças". O sonho dessa cara é ser o sacerdote. Que caminho é esse? Ou o do levita, o egoísta, só pensa na sobrevivência e na alto preservação, o negócio dele é: não me tocou tá bom, to nem aí, to nem aí, to nem aí.

Nessa estrada só tem dois caminhos de vida, ou do cara que quase foi morto porque estava andando no caminho da dignidade, ou do outro que não teve medo de ser morto porque estava andando no caminho da misericórdia. Isso muda tudo, altera tudo gente, você passar a olhar a vida assim. Teu pai não vai mudar, nem a tua mãe necessariamente, nem os vizinhos, nem a escola, nem o trabalho, mas você vai mudar, e o seu caminho vai mudar de maneira assustadora.

Eu passei por muita coisa difícil nos últimos 7 anos, eu podia ter ficado completamente amargo, ter adoecido, irrecuperavelmente triste. Mas eu encontrei os teus altares Senhor dos Exércitos, Rei meu e Deus meu.
Faz 3 meses que eu perdi um filho... amado! Estou morrendo de saudade dele... estou aqui com perfume dele... esse cheirinho aqui é dele... do perfume dele.
Mas a vida tá bonita!
Porque o caminho não é a estrada que faz, você é que faz. Na estrada pode acontecer tudo, mas tudo que aconteça não será nada, se não acontecer contigo, ou se você processar como vida, e não como morte.
O caminho de Deus é caminho de graça, de misericórdia, quem olha a vida com graça e com misericórdia, jamais ficará amargo. Sempre vai entender que por trás de qualquer tranco, tem bondade, tem um bem guardado, tem um tesouro oculto, tem no mínimo uma palavra que diz: "o que eu faço tu não sabes agora, compreendê-lo-ás depois".
Aí você começa a descobrir que seu coração vai melhorando, que a sua visão vai ficando mais clara, que o que tem valor salta, que o que não tem valor fenece. Aí você começa a descobrir que você não precisa de nada além de um ninho, e que esse ninho está em Deus. Suas inseguranças vão diminuindo, os lugares estranhos vão ficando diferentes. Até aquilo que você abomina, na hora que o caminho muda dentro de você, a estrada fica diferente fora de você. Até aquilo que antes lhe parecia completamente intolerável e insuportável, perde o significado de intolerabilidade. Quando o caminho mudou em ti e você pela fé pisou com atitude de gratidão e de contentamento no chão para ver que o caminho esta sendo feito pela gratidão e nem a estrada ruim resiste a chegada desse novo caminho. Agora isto acontece com Jesus enquanto a gente vive. Para que isso aconteça, você não pode ter medo de viver, você vai ter que viver! E viver pela fé, e viver desassombradamente e viver como quem contabiliza todas as coisas como lucro. Lucro. Tudo é lucro no caminho, meu querido.

Se você ouviu e entendeu, e se o Espírito Santo falou com você e você hoje diz para si mesmo: "Ó Deus, me perdoa! A vida está tão feia, porque meus olhos são feios. A estrada está tão maligna, porque meus olhos estão impregnados de treva. Mas, eu aprendi hoje que o importante não é a estrada, o importante é como eu caminho. Ajuda-me a caminhar no caminho da vida, da gratidão, do contentamento, da fé, da misericórdia, da graça, e não deixe que eu fique impressionado com nenhuma estrada. Por que o importante é o modo como a gente caminha".

Daqui a uns anos a gente vai olhar para trás, e o que vai ficar não é a inteligência, nem a burrice, não é a riqueza e nem a pobreza, não é afluência e nem a escassez; a única coisa que vai ficar é o modo como você caminhou. João Batista teve a sua cabeça cortada e oferecida num banquete num prato para satisfazer a volúpia provocada por uma dança. Aparentemente um trágico fim, mas o modo do caminho dele, fez Jesus dizer: “Em verdade vos digo que dos nascidos de mulher ninguém foi como João”.

O que importa, meu querido, não é o que te façam; o que importa é o que você faz de você mesmo na presença de Deus. É o modo como você caminha. E se você hoje, recebeu o chamado do Espírito de Deus no fundo do seu ser, para não ficar mais impressionado com a estrada, vai fazer um compromisso de um caminhar diferente, pela fé, sabendo que o que importa é o modo do caminhar. E que se a gente caminha, conforme o caminho, cada passo chama a existência uma coisa nova e boa. Não importa qual seja a estrada, o caminho será de vida.

Se você ficou convencido disso e quer hoje, fazer a oração daqueles que pedem a Deus para desintoxicá-los da estrada, das exterioridades, da religião, das comparações, das invejas, das ambições malignas, das frustrações que projetam o tempo todo para nós alvos inalcançáveis, enquanto o individuo deixa de aproveitar o pão nosso de cada dia, e a alegria de hoje, e a celebração de Deus hoje. Sabendo que grande não foi Nabucodonozor, maior do que ele foi João Batista, que comia gafanhoto, bebia mel silvestre e vestia roupa de camelo.

Você tem que decidir se você quer uma estrada pavimentada, uma highway para os homens ou se você quer andar no caminho de Deus, onde a alma anda sempre rica não importa o que aconteça. Se você tomou essa decisão, isso vai revolucionar sua vida, vai mexer com todo sua existência. Se você olhar assim, apreciar assim, contemplar assim e souber que a vida vai em cada passo, está no modo, está no "como" da caminhada, aí bem-aventurado você será!

Caio Fábio

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Fé cristã e fake news

Em meio a toda a discussão sobre pós-verdade e fake news, preocupa-me especialmente a facilidade com que muitos cristãos dão crédito a mensagens sem fundamento compartilhadas em mídias e redes sociais. Além da adesão a sites especializados em espalhar mentiras, há o compartilhamento de textos, áudios e vídeos contendo histórias sem a mínima comprovação, e até falsas profecias.
É assim, por exemplo, que se espalham fotos de pessoas mortas dizendo tratar-se de missionários martirizados nesse ou naquele país, quando uma simples checagem na própria internet é suficiente para provar que a imagem se refere a coisa diversa; áudios com uma voz pesarosa diante do juízo apocalíptico que Deus supostamente enviaria ao Brasil por meio de uma tsunami contra várias cidades; vídeos com explicações duvidosas acerca da última “treta” do mundo gospel; textos sobre reuniões secretas da ONU, com a presença dos mais importantes líderes mundiais, destinadas a perseguir os cristãos de todas as nações; notícias infundadas de que o presidente é satanista…
Num tom afetado, de alegada espiritualidade, essas mensagens convocam à oração – quem, em sã consciência, sendo cristão, seria contra a necessidade de orar? Outros pensam: “Não sei se é verdade, mas poderia ser”. E espalham a mentira porque ela serve à narrativa, “cumpre a profecia” ou “tem a ver”.
Não é tão difícil constatar a falsidade de uma mensagem que recebemos: geralmente as notícias falsas são sensacionalistas, aproveitando-se do medo e da ansiedade para atrair seu público; citam fatos e pessoas reais, retalhos dos últimos acontecimentos, para adquirir uma aparência de plausibilidade, mas acrescentam informações que não podem ser comprovadas, porque desprovidas de fontes confiáveis; não é incomum essas postagens conterem erros gramaticais, históricos, geográficos ou de outra natureza.
A credulidade é um problema muito grave, não só do ponto de vista intelectual, educacional e cultural, mas principalmente espiritual, porque diz respeito ao modo como a pessoa constitui seu sistema de crenças e àquilo que considera fundamento da verdade.
Fico imaginando se as pessoas que depositam sua confiança em boatos de redes sociais usam a mesma disposição mental e os mesmos critérios para aferir o que é certo e o que é errado à luz da Bíblia. Como esses cristãos crédulos avaliam pregações? De que lhes serve uma pregação expositiva? É com a fé que se aproximam das Escrituras ou é com aquela credulidade que as torna presas fáceis das fake news?
A Bíblia exorta-nos à , não à credulidade: “O simples dá crédito a cada palavra, mas o prudente atenta para os seus passos” (cf. Pv 14.15); “O coração do sábio buscará o conhecimento, mas a boca dos tolos se apascentará de estultícia” (cf. Pv 15.14); “Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (cf. At 17.11); “Amados, não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (cf. I Jo 4.1).
Nós, cristãos, não fomos chamados a crer pura e simplesmente, mas a crer em Deus, na Pessoa de Cristo, conforme as Escrituras.
Fé é confiança na palavra de Deus (cf. Hb 11.1). Fé é uma resposta positiva à graça divina (cf. Ef 2.8). Credulidade, por sua vez, é a inclinação a acreditar celeremente no que se ouve ou lê, sem juízo crítico, sem capacidade de avaliação. Lembro, aqui, do interessante opúsculo de John Stott intitulado Crer é também pensar (publicado no Brasil pela ABU Editora), cujo título original é Your mind matters (“Sua mente importa”).
Os servos de Deus, os quais têm “a mente de Cristo” (cf. I Co 2.16), devem examinar todas as coisas (cf. I Ts 5.21) e ser “sóbrios” (cf. I Pe 4.7; “criteriosos”, na versão Almeida Revista e Atualizada). Acreditar facilmente em qualquer coisa atenta contra o caráter de Cristo. A fé cristã produz no convertido uma disposição mental renovada, a restauração progressiva de sua capacidade intelectiva, até que ele seja completamente liberto dos efeitos noéticos da Queda, o que acontecerá quando da glorificação prometida ao que crê (cf. Rm 8.23; I Jo 3.2).
Temo sinceramente que muitos cristãos recebam as pregações da mesma forma como recebem (e depois espalham) notícias falsas disseminadas na internet: se a pregação compartilhada for bíblica, não haverá o que objetar, senão pelo exíguo benefício que poderão extrair da palavra aqueles que forem deficientes em sua análise; o problema é que, em virtude do juízo crítico pouco aguçado, os crédulos costumam ser atraídos por pregadores sensacionalistas, triunfalistas, de autoajuda, promotores de “eisegese” em lugar de exegese, o que talvez explique, ao menos em parte, a crise em que se acha (e se perde) a Igreja evangélica brasileira.

Gospel Prime

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A árvore ética

por Alex Esteves
 
Para assustar os céticos, os liberais, os pós-modernistas e os incrédulos de todo gênero, confesso: creio na Bíblia como sendo a Palavra de Deus inspirada, autoritativa, inerrante, infalível e suficiente, o que me torna um cristão protestante e – permitam-me os irmãos calvinistas – reformado no sentido amplo. Sendo assim, professo minha fé na historicidade de Adão e Eva, do jardim do Éden, da Queda e das maldições que de lá irradiaram como consequência divinamente determinada para o cometimento do mal.
Dito isso, gostaria de pontuar singelamente como entendo o pecado dos nossos Primeiros Pais.
Narra o Livro de Gênesis, em seus três capítulos iniciais, tanto a Criação (caps. 1 e 2) como a Queda (3.1-6), tanto o mandato cultural (1.26-28) como os efeitos da atitude pecaminosa (2.7-12), tanto o mandamento divino (2.16,17) como a condenação que sucedeu à desobediência (3.14-24). Nada disso é lenda, mito ou folclore judaico.
Adão e Eva receberam de Deus o usufruto de “toda árvore do jardim”, à exceção da “árvore da ciência do bem e do mal”, sob pena de morte. A serpente, incorporando o diabo, incutiu na mente humana a noção errônea de que tal mandamento era pesado demais e fruto de suposta maldade de Deus, que estaria, com isso, negando ao Homem a possibilidade de se divinizar por meio do conhecimento.
Em seu estratagema, a serpente propôs a dúvida sobre o que Deus havia dito, e ainda o distorceu: “É assim que Deus disse? Não comereis de toda árvore do jardim?” Repare bem: uma coisa é oferecer toda árvore do jardim, prescrevendo uma exceção; outra, bem diferente, é dizer “não comereis de toda árvore do jardim”. Havia, na premissa diabólica, uma ênfase no aspecto negativo do mandamento, como se este fora instrumento de tortura, quando era, de fato, prevenção contra a morte.
A outra premissa diabólica consiste em afirmar que Deus teria “segundas intenções”, o que no direito chamamos de “reserva mental”: se comessem do fruto proibido, alegou a serpente, nossos Primeiros Pais teriam os olhos abertos, e seriam “como Deus, sabendo o bem e o mal”. Mais do que isso: de acordo com a proposta do diabo, conhecer o bem e mal é igual a divinizar-se. E, como sabemos, tal falácia despertou no coração humano o desejo por esse “entendimento” emancipatório (cf. Gn 3.6).
A árvore da ciência do bem e do mal é a árvore ética, porque ética é justamente o conhecimento do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e do injusto. Antes da Queda, o Criador, por assim dizer, alimentava a humanidade com a ética divina, orientando-a sobre o caminho a seguir; depois da Queda, houve uma proclamação de independência, de autonomia, de emancipação moral, momento em que Adão e Eva decidiram buscar em si mesmos o critério de aferição da verdade.
Da mesma forma como a mulher achou que a árvore era “boa para se comer”, “agradável aos olhos” e “desejável para dar entendimento”, persistem em toda a história “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (cf. I Jo 2.16), repetindo-se o percurso transgressor que nos trouxe à tragédia. É assim que “cada um é tentado quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência”, depois do quê, uma vez consumado, o pecado “gera a morte” (cf. Tg 1.14,15). E morte, em vez de aniquilação, é separação, a ponto de todos estarem “separados (…) da glória de Deus” (cf. Rm 3.23).
A teologia liberal, racionalista por natureza, labora nas premissas da serpente, na medida em que erige a dúvida como pressuposto, e não a fé; propõe o entendimento humano como alvo a ser alcançado, e não a obediência a Deus; e distorce os fundamentos da Palavra do SENHOR, porque não sabe conviver com a verdade pura e simples.
O relativismo ético teve origem no Éden: foi lá que, primeiro, alguém alçoou a voz para propor uma ética própria, essencialmente humana, avessa ao transcendente, orgulhosa e degenerada. Ali nasceram o antropocentrismo (culto à humanidade) e o hedonismo (culto ao prazer). Foi no Éden, por ocasião da Queda, que a primeira criatura humana teve a ousadia de se autoafirmar perante o Criador, como se pudesse conduzir sua existência sobre bases exclusivamente humanas, o que se define por secularização.
Não é preciso descrer na historicidade adâmica para considerar a dimensão ética e filosófica do relato acima referido. Alguém poderia afirmar que Deus tinha o direito de estabelecer o mandamento como simples prova moral, a seu soberano critério, mas, pelo conjunto das Escrituras, sinto-me autorizado a afirmar que o preceito violado pelo Primeiro Casal era mais do que um teste, dizendo respeito, isto sim, à natureza do relacionamento proposto por Deus à raça dos filhos de Adão.
Creio, pois, que a Bíblia nos permite compreender o mandamento de Gn 2.16,17 como o fundamento ético da existência humana, mostrando-nos que não existe verdadeira liberdade sem obediência a Deus, que o Homem só é feliz se estiver em Deus, e que a morte, no sentido mais dantesco da palavra, é viver como se Deus não existisse.
Enquanto o descrente vive nesta Terra, Deus lhe dá oportunidades, mas haverá um dia em que todo aquele que vive como se Deus não existisse terá a triste e amargurada companhia do mais absoluto silêncio de Deus, da mais absoluta distância de Deus – esta será “a segunda morte”, consectário lógico da primeira, que destampou no jardim.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Por que o movimento evangélico cresce e o Brasil não melhora?

Em 2020, provavelmente seremos numericamente a classe religiosa predominante no país. Todavia, o que vemos hoje, já com todo um avanço do movimento evangélico em décadas? Corrupção na política, a violência urbana, a desigualdade social nunca foram tão alarmantes. Jamais vivemos com tão baixa qualidade de vida, e jamais sofremos tanto com a ausência de representatividade na sociedade.
Quando a sociedade brasileira procura debater assuntos densos e vitais, pouquíssimos evangélicos são chamados à participar da conversa. Seria apenas uma perseguição velada ou de fato estamos destoando na relação “discurso x prática” do que cremos? Não seria o evangelho a solução para que o ser humano fosse redimido e vivesse num contexto de graça e não de impiedade? Por que então a nova vida em Cristo não promove na comunidade da fé uma práxis tão relevante entre os incrédulos que os atraiam a nos ouvir, mesmo que em assuntos não-religiosos?
E mais: ainda somos um povo marcado por algumas expressões:
Dízimos: fora a polêmica em si sobre o conceito, usam essa prática como um meio de acusar os pastores de ladrões e vagabundos.
Fofoca: o pecado mais comum entre os arrais evangélicos, e ao mesmo tempo menos passivos de disciplina ou até exclusão do rol de membros, o que é bem diferente do pecado sexual no namoro.
Gula: “crente não bebe, mas come (…)”.
Hipocrisia: os que não frequentam uma igreja evangélica sempre pensam que os evangélicos devem se impor moralmente sobre os outros – um fardo que eles mesmos não poderiam carregar na vida.
Tais marcas são significativas; porém, em especial, o que mais nos marca nesta geração é o fato de que demonstramos algumas negligências na missão, na ação social, no testemunho de vida e na comunhão. Claro que não se pode generalizar, pois sempre existem os famosos sete mil que não se dobraram a “Baal”, mas “7.000” numa demanda milionária em termos nacionais e bilionária de gente em termos globais a se alcançar com o evangelho é muito pouco.

Uma série de constatações

Respondendo objetivamente à pergunta do título deste artigo, creio que duas palavras abririam espaço para uma compreensão desta resposta: engajamento cristão.
Se houvesse mais engajamento missionário, mais engajamento político, mais engajamento intelectual, mais engajamento profissional, ético, teológico e eclesiástico, com tudo isso visando a glória de Deus e a salvação dos homens, creio que o crescimento seria manifesto em transformação da sociedade como um todo.
A sociedade está sofrendo porque a Igreja (com algumas exceções), de forma geral, está enclausurada em programas, movimentos em quatro paredes, consumismo, materialismo, disputas templocêntricas, eventos com um fim no dinheiro ou no entretenimento etc. Pouco produzimos na sociedade, pouco se investe em “gente”.
Muitos são evangelistas ou profetas apenas no Facebook enquanto gente ao nosso lado morre de depressão.
Somos pouco reflexivos e muito sensitivos; somos barulhentos e não damos valor à meditação na Escritura conforme Salmo 1, além de não aceitarmos críticas, como se toda opinião contrária ou fosse do demônio ou fosse emitida pelo outro por pura birra ou inveja.
Muita superficialidade; pouca devoção. Muito show gospel; poucas reuniões de oração e busca do poder de Deus. Muito discurso gospel; pouca prática cristã.
Há quem tenha crise com o termo “evangélico”, o que ainda não é o meu caso, pois entendo que tal termo é historicamente marcado por muita influência nas maiores transformações sociais que o mundo moderno sofreu, com o advento da Reforma e a participação efetiva de tantos irmãos cheios do Espírito Santo e da graça de Deus que não só pregaram mas serviram suas nações com obras dignas de Cristo, construindo creches, universidades, hospitais e outras instituições que promovem a vida e a dignidade humanas. A democracia, tão exaltada nos dias de hoje, é uma conquista de muitos irmãos evangélicos, direta e indiretamente. O estado laico, tão reivindicado nos tempos atuais, é uma vitória política alcançada pela cosmovisão reformada. Ser evangélico, no sentido puro do termo, é ser uma pessoa do evangelho, que busca a redenção do ser humano por meio da graça multiforme que há em Cristo Jesus, o Deus-homem. No entanto, é de se reconhecer que há hoje em dia um rótulo negativo sobre esta expressão “evangélico”.
E há ainda uma questão maior: a mensagem é poderosa, mas os mensageiros talvez não saibam disso.

Sendo assim, o que fazer?

Precisamos, a meu ver, de pelo menos três ações graciosas que iniciam-se em Deus, alcançam o nosso coração e, após transformá-lo, culminam em transformações na sociedade.
Avivamento genuíno
Que começa por um retorno às Escrituras. No entanto, o povo de Deus somente se voltará para sua Palavra quando o Senhor soberanamente agir em nosso favor por meio dos cristãos verdadeiros que já entendem a urgência visceral desta demanda espiritual. Os que já se posicionaram frente ao evangelho e decidiram esmagar o próprio ego todos os dias precisam assumir os púlpitos das igrejas e todas plataformas de comunicação das verdades divinas possíveis para gerar influência no máximo dentre aqueles que dormitam na fé. Precisamos pregar a palavra com paixão, fidelidade aos textos inspirados e ousadia, para que os grandes frutos da verdadeira vida no Espírito sejam produzidos.
A terra está clamando não por grandes avivamentos espirituais que se fundamentam e se estabelecem na sensorialidade epidérmica, mas por um avivamento embasado nos dois maiores frutos do evangelho: ARREPENDIMENTO E FÉ.
Discipulado bíblico
A palavra que esmaga o ego é a palavra que exalta o Senhor Jesus nos corações que foram feridos por ela. E estes que encontram o Rei por meio da mensagem magnífica do evangelho e decidem se arrepender e crer para a vida eterna são compelidos a encontrar o valor de sua espiritualidade no outro, naquele que carece de ensino e vida praticada. O discipulado bíblico é feito para que o discípulo se torne discípulo verdadeiro de Jesus, não de homens. E quanto mais discípulos de Jesus, mais atuações reais nos dramas da sociedade caída, gerando assim mudanças no status quo e um aumento da qualidade de vida em todos os âmbitos.
Redenção cultural
Cristãos que vivem o evangelho podem redimir a cultura vigente, que está sofrendo impactos fortíssimos do pecado. Os valores morais, o modelos políticos e socioeconômicos e toda uma maneira de se viver em sociedade podem se ajustar aos desígnios de Cristo revelados em sua palavra. O povo do Crucificado/Ressuscitado/Glorificado é ainda a esperança de dias melhores na nação brasileira. Oro para que, em ano de eleições, a comunidade cristã que entende o que significa o reino de Deus cumpra de forma aplicada a obediência de 2 Crônicas 7.14.
Deus pode sarar o Brasil. E o processo de cura começa de dentro pra fora. Começa, portanto, na cura de muitos evangélicos.

Gospel Prime

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O que significa levita? Levitas eram cantores?

Criou-se no meio evangélico, sobretudo pentecostal e neopentecostal, o hábito de referir-se à cantores da igreja como “levitas do Senhor”. Não poucos cartazes espalhados por aí anunciam os cantores convidados como “levitas”. Mas afinal, o que é um levita? A Bíblia respalda o costume moderno de chamar cantores de levitas?

Quem eram

Levitas eram descendentes de Levi, o terceiro filho do casamento de Jacó com Lia. Foram separados por Deus para se responsabilizarem pelo sistema cultual e sacrificial da nação de Israel. Arão e seus filhos, que também eram da tribo de Levi, ficaram responsáveis pelo sacerdócio, enquanto os demais levitas auxiliavam nos serviços do tabernáculo e, posteriormente, do templo.

O que faziam

Segundo o Dicionário Ilustrado da Bíblia, os jovens levitas começavam seu trabalho como assistentes dos sacerdotes e dos chefes dos levitas e iam progredindo para cargos mais altos, tais como porteiro, músico da orquestra (nos dias de Davi) e administrador. Os levitas se aposentavam do serviço aos 50 anos de idade, embora continuassem dando assistência (mas sem realizar serviço braçal) aos jovens sucessores (Nm 8.25-26).
Alguns dos serviços realizados pelos levitas:
  • Responsáveis pela guarda e conservação do tabernáculo e de todos os seus móveis e utensílios (Nm 1.50-53; 3.6-0; 4.1-33);
  • Auxiliavam os sacerdotes a matar e esfolar os animais para o sacrifício;
  • Examinavam os leprosos, conforme a prescrição da Lei;
  • Recebiam os dízimos dos demais judeus, mas também entregavam seus dízimos aos sacerdotes (descendentes de Arão);
No reinado de Davi (1Cr 23.1-5), com grandes reformas litúrgicas feitas por aquele monarca de Israel, os levitas foram divididos em quatro classes:
(1) assistentes dos sacerdotes no trabalho do santuário; (2) juízes e escribas; (3) porteiros; (4) músicos.
Perceba que a música era apenas uma dentre muitas ocupações dos levitas. Aliás, vale ressaltar que primordialmente a música não era atribuição dos levitas, e sim o auxílio aos sacerdotes na organização do tabernáculo ou templo e do culto judaico. Tocar e cantar foi uma função agregada aos levitas tardiamente.

E então, cantores são levitas hoje?

Primeiro vale dizer que nenhum texto do Novo Testamento trata os cristãos como levitas, mas diz que todos os salvos – não apenas cantores! – fomos feitos “reino e sacerdócio” (Ap 5.10; conf. 1Pe 2.9: “Mas vós sois… sacerdócio real”). Ou seja, todo crente é um sacerdote, porque oficia diante de Deus, ministrando culto e adoração ao Senhor. Mas levita propriamente, a Bíblia não diz que nós cristãos somos.
Segundo, vale questionar: se levitas não eram nem primordialmente nem exclusivamente cantores ou músicos, por que hoje adjetivamos apenas os que trabalham com louvor como levitas? Levitas também eram porteiros, mas não chamamos nenhum porteiro de levita. Levitas eram responsáveis pela limpeza do tabernáculo, mas não chamamos as zeladoras da igreja de levitas. Por que só os cantores ou músicos são chamados de levitas?
Terceiro, um descendente da tribo de Judá (como Jesus) ou de qualquer outra tribo que não fosse Levi, jamais poderia ser chamado de levita ou ocupar o ofício levítico. Por que esta obsessão pelo título de levita, quando não se é judeu descendente de Levi?
Os que assim insistem em apelidar cantores ou músicos da igreja ou se autoproclamar como “levita do Senhor”, devem responder a algumas perguntas básicas:
  1. É judeu? Tem o sangue de Jacó correndo nas veias?
  2. É da tribo de Levi? Pode comprovar isso?
  3. Está disposto a reconhecer que como levita tem outros deveres além de cantar, inclusive auxiliar na limpeza ou na portaria do templo?

sexta-feira, 30 de março de 2018

O que é Ética Cristã

INTRODUÇÃO
Falar de ética cristã não é fácil, nem tão simples quanto gostaríamos. O assunto é vasto, dialoga com muitas áreas do saber, e demanda muita pesquisa por parte do ensinador da Palavra de Deus. Só na obra Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, do Dr. Russel Norman Champlin (ed. Hagnos), a conceituação do verbete ÉTICA (em suas diversas ramificações) ocupa quase 34 longas páginas! Há fortes e variadas implicações filosóficas e teológicas na abordagem deste assunto, mas as nossas aulas dominicais exigem que sejamos menos técnicos e prolixos, e mais práticos e concisos na abordagem desse assunto, para que não imponhamos prejuízo ao entendimento de nossos alunos, cuja formação secular e bíblica é tão variada. Discussões mais técnicas deixamos para ambientes de ensino técnico, como as faculdades ou seminários.
Não podemos também nos esquecer que precisamos falar de ética numa perspectiva cristã, objetivando alcançar não apenas a mente de nossos alunos, transmitindo informação e promovendo discussão, mas, muito mais que isso, levarmos nossos alunos à reflexão, e à uma tomada de postura ética que seja bíblica e cristã no enfrentamento da inversão de valores morais como percebemos na sociedade em que vivemos. Como dizia o pedagogo Howard Hendricks, “ensinando para transformar vidas”! Bom trimestre e boa aula!
Antes de prosseguirmos, gostaria de te apresentar um conteúdo que pode lhe ajudar a melhorar suas aulas na Escola Bíblica Dominical. O curso produzido pela Universidade da Bíblia chama-se Formação de Professores para Escola Bíblica Dominical e tem matérias sobre a psicologia da educação cristã, didática, métodos de ensino entre outros. Clique aqui e saiba mais!

I. CONCEITO DE ÉTICA CRISTÃ

O pastor e teólogo assembleiano Claudionor de Andrade, em seu livro As novas fronteiras da Ética Cristã (CPAD), apresenta-nos dois conceitos básicos de ética:
1. Ética (secular)“conjunto de normas e preceitos valorativos, cuja missão é orientar o indivíduo, em particular, e a sociedade, como um todo, a trabalhar pelo bem comum” (1). Andrade faz, contudo, a ressalva de que “no âmbito das academias, porém, a ética adquire algumas conotações bastante deletérias”. Entretanto, para fins pedagógicos, nos contentaremos com o conceito apresentado acima, apenas acrescentando o étimo da palavra ética: no grego, ética é “ethos”, que significa “costume”, “disposição”, “hábito”. Assim, o Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano define ética com brevidade: a ciência da conduta (2).
Como é impossível falar de ética e não falar de moral, visto que ambos os conceitos são intimamente correlatos, precisamos aqui também conceituar moral. Moral, do latim morales, refere-se, segundo o comentarista da nossa Lição, o Dr. Douglas Baptista, “ao comportamento das pessoas e às reações dos indivíduos que compõem uma sociedade em relação às regras estabelecidas pela ética” (3). Poderíamos dizer que Ética (com inicial maiúscula) é a ciência que estuda o comportamento humano ideal; ética (com inicial minúscula) corresponde ao próprio comportamento ideal em sociedade; e moral corresponde à reação individual de cada membro da sociedade em relação ao que está como padrão ideal. Os que seguem os valores éticos da sociedade são considerados sujeitos morais, ao passo que aqueles que vivem de modo transgressor aos padrões éticos são chamados de imorais.
2. Ética cristã“é a ciência que tem por objetivo orientar não apenas o cristão, mas também o não cristão, quanto às reivindicações da Bíblia Sagrada acerca de sua conduta pessoal, familiar e publicar” (4). Champlin diz que “A ética cristã normal e ortodoxa é uma forma de ética absoluta”, cujo pressuposto básico “é que os princípios morais alicerçam-se sobre padrões imutáveis, que não se alteram em face de situações ou de indivíduos” (5). Mas os valores absolutos da ética cristã são absolutos porque repousam sobre a revelação de Deus nas Escrituras Sagradas. “Portanto, a ética cristã não se modifica e nem se relativiza. Desse modo, a ética cristã não pode ser desassociada da moral e dos bons costumes preconizados nas doutrinas bíblicas”, conclui o comentarista Douglas Baptista (6). A ética cristã, portanto, é sujeita às doutrinas bíblicas, jamais o inverso. O decano da educação cristã no Brasil, Pr. Antônio Gilberto, é incisivo: “A doutrina bíblica gera bons costumes, mas bons costumes não geram boa doutrina. Igrejas há que têm um somatório imenso de bons costumes, mas quase nada de doutrina. Seus membros naufragam com facilidade por não terem o lastro espiritual da Palavra” (7).
Concluo este tópico com três princípios elementares da ética cristã:
Primeiro, a ética cristã é UNIVERSAL, ou seja, os valores que ela apregoa são válidos para todos os homens em todo mundo; segundo, a ética cristã é SUPRACULTURAL, isto é, está acima das culturas locais, podendo até mesmo ajustá-las ou transformá-las, para que elas se adequem aos valores cristãos (por exemplo, culturas onde a idolatria, poligamia, pedofilia ou violência contra a mulher são praticados e algumas vezes até reconhecidos e assegurados por políticas ou costumes locais); por último, a ética cristã é ATEMPORAL, ou seja, não tem prazo de validade. Aquilo que o Evangelho apresenta como regra de fé e prática deve ser obedecido em todo mundo e em todo tempo. A ética cristã traz os marcos antigos que não podem ser removidos! (Pv 22.28; 2Ts 3.6)

II. FUNDAMENTOS DA ÉTICA CRISTÃ

Como já dissemos no primeiro tópico, o principal fundamento da ética cristã é a Palavra de Deus, a Bíblia sagrada. Neste sentido, é preciso considerar que a Bíblia é a Palavra inspirada, inerrante e infalível de Deus! Romper com estes pressupostos – como fizeram os teólogos liberais e/ou ecumênicos – é romper também a noção dos valores absolutos esposados na Bíblia Sagrada. Ou seja, recusar que a Bíblia é a Palavra de Deus inerrante é recusar que ela tenha a última palavra em matéria de conduta moral para o ser humano. Mas a Bíblia é a nossa regra de fé e prática – Sola Scriptura!
Como está bem colocado no corpo da nossa Lição (CPAD), os fundamentos bíblicos da ética cristã perpassam desde o Decálogo (Os Dez Mandamentos), pelo sermão do monte de Jesus, pelos ensinos paulinos, até as epístolas gerais do Novo Testamento. Visto que a Bíblia nos revela o caráter de Deus e conclama-nos a imitá-lo (Ef 5.1), precisamos voltar-nos para as páginas do livro sagrado se quisermos saber que maneira de proceder é adequada ou não ao cristão. A Bíblia é o nosso ponto de referência para distinguirmos o certo e o errado! O que convém e o que não convém! (1Co 10.23) E assim separarmos o santo do profano (Lv 10.10). Alan Pallister destaca: “uma ética fundamentada na Lei de Deus e no ensino de Cristo é manifestamente uma opção melhor e mais racional, do que uma ética que pretende se fundamentar no iluminismo ou em filosofias mais recentes” (8).
Agora, como bem salienta o pastor Claudionor de Andrade, embora a Bíblia tenha a supremacia em matéria de ética cristã, não descartamos um apoio secundário em outras fontes legítimas. Andrade destaca, além da Bíblia, o papel da tradição eclesiástica, das leis humanas e dos bons costumes, sendo que todas estas outras fontes de conhecimento e orientação só estão legitimadas enquanto em consonância com a Palavra de Deus. Sobretudo por razões apologéticas, ou seja, na defesa da fé e dos valores cristãos, precisamos nos munir de múltiplos conhecimentos para darmos a razão de nossa fé aos que nos inquirirem sobre questões éticas. Andrade explica:
“Não basta dizer, por exemplo, que o aborto é uma prática condenável. É necessário que nos especializemos no assunto, visando conhecer-lhe todas as implicações. Dessa forma, teremos um firme embasamento para justificar as demandas da Palavra de Deus quanto à santidade da vida humana. (…) Se não formos razoáveis e lógicos, jamais seremos ouvidos por um mundo relativizado, incrédulo, exigente e inamistoso” (9).
Assim sendo, é bom que sejamos tradicionais sem ser tradicionalistas; legais sem ser legalistas. Tanto a tradição da igreja histórica, especialmente via Credos religiosos, como as leis seculares, especialmente naquilo que pretende assegurar o direito e a proteção aos bons costumes, podem ser apoios para o cristão explicar e aplicar os valores da Palavra de Deus em nossos dias. Há muitos questionamentos feitos pelo homem moderno cujas respostas não estão dadas direta e objetivamente na Bíblia, mas a partir do bom senso e de uma apreciação razoável da opinião de homens e mulheres de Deus que viveram no passado além de um profundo conhecimento das leis e dos costumes de um povo, podemos apresentar soluções adequadas aos dilemas da sociedade. Por exemplo, a Bíblia não diz nada sobre pesquisa com células tronco, nem sobre pleitos eleitorais, nem sobre ideologia de gênero ou sobre o consumo de drogas. Mas certamente o conhecimento dos princípios e doutrinas bíblicas, aliado a uma leitura profunda destas demandas da sociedade em nosso tempo, poderão munir o cristão para “responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pe 3.15).

III. CHAMADOS A VIVER ETICAMENTE

Nossa primeira Lição deste trimestre tem como texto bíblico de base os versículos 1 a 13 do décimo capítulo da primeira carta de Paulo aos Coríntios. Neste trecho bíblico, o apóstolo Paulo ressalta a morte de milhares de judeus no deserto durante a fuga do Egito em virtude dos muitos pecados praticados de modo contumaz por aquela geração incorrigível. Paulo destaca os seguintes pecados: cobiça (v.6), idolatria (v. 7), prostituição (v. 8), tentar a Cristo (v. 9), e murmuração (v. 10). O que merece destaque é que aquela trágica experiência da geração desobediente de Israel está posta para nós “em figura” (v. 6),  ou “como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” (v. 11). Ou seja, o que Israel padeceu por não viver a ética estabelecida por Deus é um aviso de Deus para nós hoje que, a exemplo deles, padeceremos se não atentarmos para os valores do Reino de Deus.
  1. Cobiça – A ética cristã ao mesmo tempo em que reprova a cobiça às posses alheias (Ex 20.17; Rm 13.9), também defende a proteção ao bem alheio (Dt 19.14); ao mesmo tempo em que condena a cobiça do que é mau, ordena a busca do que é bom (3Jo 11).
  2. Idolatria – A ética cristã não suporta a visão religiosa pluralista, nem pactua com o ecumenismo. A teoria de que “tudo é Deus” (panteísmo), “todos os caminhos levam a Deus” (politeísmo) ou que “somos todos irmãos” (ecumenismo) deve ser rechaçada, visto que somente Deus é digno de ser adorado, e que Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida, excluindo qualquer possibilidade do homem chegar-se a Deus por outros meios (Jo 14.6; At 4.12). Idolatria foi um dos pecados mais recorrentes no antigo Israel, e a razão de muitas vezes ter sido punido por Deus, inclusive com o exílio e e constantes invasões estrangeiras.
  3. Prostituição – A ética cristã é inimiga das relações sexuais libertinas, que não se limitam ao leito conjugal que deve ser honrado. “Os que se dão a prostituição, Deus os julgará” (Hb 13.4). Visto que vivemos dias semelhantes aos de Noé e de Ló (Lc 17.26-28), em que os clamores pela liberação sexual se multiplicam em toda terra, e práticas perversas têm sido cada vez mais frequentes (bestialismo, homossexualismo, pedofilia, etc.), a igreja precisa erguer a voz e levantar a bandeira dos bons costumes judaico-cristãos: virgindade até o casamento, pureza entre solteiros, respeito ao corpo como templo e morada do Espírito, casamento heterossexual e monogâmico. A Igreja deve ser o sal que preserva da corrupção e traz o bom sabor, e também deve ser a luz que dissipa as trevas da imoralidade! (Mt 5.13,14)
  4. Tentar a Cristo – O que significa tentar a Deus ou tentar a Cristo? O Dr. Anthony D’Palma responde com clareza: “‘Tentar o Senhor’ é experimentar até que ponto se pode abusar da paciência de Deus antes de incorrer em seu julgamento (Dt 6.16)” (10). Abusar da paciência de Deus revela uma falta de temor no coração do homem, mas a ética cristã é justamente pautada pelo temor e a reverência a Deus! Logo, são imorais aqueles que vivem tentando ao Senhor com seus pecados reiterados e a obstinação do coração.
  5. Murmuração – Como pontua o pastor Douglas Baptista, “o significado [de murmuração] aqui se refere à falta de ética que provoca maledicência, inveja e calúnias contra o próximo, e ainda provoca a ira de Deus” (11). A ética cristã rege que sejamos agradecidos a Deus em toda e qualquer situação (Cl 3.15; 1Ts 5.18), e que não falemos mal de nosso próximo (Tg 4.11). Logo, mal utilizar a língua para “incendiar um bosque” (Tg 3.5) é ferir ao mesmo tempo os dois mandamentos em que se resume toda a Lei: amar a Deus e ao próximo (Lc 10.27). Que nossas palavras sejam sempre agradáveis, nunca usando de ira e maldizer, dando glórias a Deus em toda situação e comunicando palavras de vida aos que nos ouvirem (Sl 19.14; Cl 4.6).

CONCLUSÃO

Estou plenamente convicto de que os conceitos introdutórios sobre ética cristã trabalhados aqui serão ampliados ao longo do trimestre. A Igreja do Senhor precisa se preparar para defender com mansidão e sabedoria os bons valores que a sociedade tem negociado e perdido ao longo dos séculos. O cantor Victorino Silva em uma de suas belíssimas canções, diz: “Parece que o pecar não é pecado mais, parece que o errar não é errado mais, parece tão comum pedir mais um perdão, parece que o temor não há nos corações”. Este hino “Consequências” é um fiel retrato da perca da ética cristã em muitos círculos evangélicos. Que lamentável! “Antes que a lâmpada se apague” (1Sm 3.3) precisamos resgatar e sustentar os bons valores como um antigo soldado que devia segurar e utilizar bem sua espada em meio à guerra. Sim, este trimestre estamos convocados pelo General dos Exércitos a “manejar bem a Palavra da verdade” (2Tm 2.15) na defesa dos valores imutáveis e dos bons costumes declarados no Evangelho. E isso faremos ao longo deste trimestre, se Deus assim nos permitir!

Gospel Prime

sexta-feira, 16 de março de 2018

Você está vivendo ou só gastando tempo de vida?

A nossa vivência em sociedade, em todas as épocas, sempre nos levou a buscar o sucesso. Só que, assim como em todas as épocas, buscamos e/ou conquistamos sucesso com uma ou mais motivações.
Mas ter motivação para a conquista do sucesso não é, per si, causa excelente para nos garantir a realização, pois, às vezes, buscamos o sucesso com uma ou mais motivações erradas, e será no momento em que conquistarmos tal sucesso que perceberemos que não estamos realizados e chegaremos à conclusão de que tudo que fizemos foi não viver e sim gastar de tempo de vida.
Uma pessoa que busca o sucesso para provar a alguém que ela não é o tipo de pessoa insignificante que tal pessoa julgou ser ela, está fadada a enfrentar pelo menos três tipos de situações, quais sejam: 1. De superar os desafios requeridos para alcançar o sucesso que busca; 2. De tentar fazer com que seu desafeto “engula” seu orgulho e a aplauda em seu sucesso; 3. De, provavelmente, se frustrar pelo fato de ter buscado uma conquista que, embora lhe traga o sucesso, não lhe proporcionará realização.

A vida é coisa séria

Como está provado, viver não é tão fácil, pois podemos facilmente nos permitir não viver por toda uma vida, ou parte dela, e, assim, ter de encarar a frustração de não termos verificado o que nos motivou ou motiva a buscar o que buscamos e a fazer o que fazemos.
Embora eu não seja adepto do busdismo, concordo com o que disse o pensador budista Lao-Tsé que escreveu que “uma longa viagem começa com um único passo”. Mas na vida não é tão simples assim. Antes de iniciarmos uma caminhada rumo à conquista de algo, devemos nos questionar sobre nossa motivação para tal até que todas as máscaras ilusórias tenham sido retiradas, pois, se percorrermos um caminho que não nos fará bem à alma no final, teremos feito uma longa e vã caminhada.

Risco

A única pessoa a quem você precisa provar algo é à você mesmo, pois, do contrário, vais se colocar como que em um julgamento onde as provas e contraprovas vão debilitar sua alma e esmigalhar suas emoções te tornando alguém facilmente suscetível à depressão, à ansiedade, baixo-estima pessoal e à todas as demais doenças que podem afetar a uma alma que não tem robustez existencial.
Perguntas
O que está te motivando a fazer tudo o que você tem feito? Você, de fato, está vivendo ou só gastando tempo de vida?

GOSPEL PRIME