sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Toda violência é ruim?

O problema do Brasil não é a violência, mas a criminalidade. Nem toda violência é ruim. Mas a violência perpetrada pelo criminoso o é, pois ela não tem finalidade virtuosa já que ele está matando para roubar ou simplesmente porque foi contratado para tal.
Não que os meios violentos devam justificar os fins do salvamento, mas se for preciso se prover de tal, que de tal nos provenhamos. Não estou indo contra a Bíblia no que ela diz que devemos “dar a outra face” (para não se permitir dar-se como causa de escândalo aos que perseguissem aos cristãos por causa da fé cristã), pois não estou defendendo uma conduta violenta, mas uma conduta de defesa de si, da família e do que é seu diante de um criminoso “convicto”.

A mesma bíblia diz que as autoridades “portam a espada não por vã razão” (possibilidade de fazer uso da violência para coibir o criminoso), mas utilizá-la, se preciso for. Uma espada, naquela época, era usada para que os mal-intencionados percebessem que, para atacar alguém armado, lhe seria mais trabalhoso, pois a potencial vítima tinha como se defender.
A espada também era usada, quando numa porfia bélica, para ferir é até mesmo matar quem tentava lhe fazer o mesmo. Na época em isso (o que está sob aspas) foi escrito na Bíblia, qualquer um podia portar uma espada (Pedro até usou a sua no momento em que os soldados foram prender Jesus). Jesus não mandou Pedro jogar a espada fora, mas mandou que ele a guardasse, como quem diz: “use-a em circunstância propicia, Pedro”.
O fato de um cidadão ou o Estado reagir a uma ação criminosa e ferir ou mesmo tirar a vida do criminoso não o torna um criminoso também, pois ele não foi o agente provocador da violência que culminou numa tragédia (toda morte em decorrência de uma violência é uma tragédia, mas, se necessária, é uma “virtuosa” tragédia, pois se salvou o que se mostrou ser e agir pelo bem naquele momento).
Bandido bom não é bandido morto. Bandido bom é bandido que acata as chances que tem e muda de vida. Não é por que ele, como diria Rosseau (a quem estou me contrapondo), é uma “vítima” das circunstâncias de sua condição social que vai se prover disso, usando seu poder de decisão, para fazer vítimas de sua “vitimicidade”.

Gospel Prime

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Que tipo de fariseu você é?

Segundo a história os Fariseus surgiram aproximadamente por volta do ano 170 a.C., com a perseguição de Antíoco Epifânio. O helenismo ameaçava invadir a religião que cultuava ao Deus verdadeiro para destruí-la e absorvê-la.
Em consequência disso, formaram-se no seio do povo judeu, iniciando pela classe elevada, duas tendências opostas: uma que rejeitava o helenismo com indomável energia, e outra que aceitava com certa moderação as ideias e influências do paganismo. De certa forma o surgimento dos Fariseus foi de grande valia para a época.
O grande erro deste grupo foi o desvio do propósito inicial. Os partidários da primeira tendência foram, então, chamados de “Perushins” (os separados). Sobre suas práticas exageradas escreveu Marcos:
“E ajuntaram-se a ele os fariseus, e alguns dos escribas que tinham vindo de Jerusalém. E, vendo que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar, os repreendiam. Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar as mãos muitas vezes; E, quando voltam do mercado, se não se lavarem, não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas.” (Mc 7.1-4)
O próprio Talmude (um dos livros básicos da religião judaica, contém a lei oral, a doutrina, a moral e as tradições dos judeus [Surgido da necessidade de complementar a Torá, foi editado em aramaico como um extenso comentário sobre seções da Mixná, reunindo textos do sIII até o sV.] ) quis privar-se do maligno prazer de registrar a atitude ridícula de muitos deles: “ Existem sete tipos de Fariseus”:
  • O que aceita a Lei como uma carga
  • O que age por interesse
  • O que bate a cabeça contra a parede para não ver uma mulher
  • O que age por ostentação
  • O que pergunta qual é a boa obra que deve fazer
  • O que age por temor
  • O que age por amor
É praticamente impossível fazer a leitura acima sem aplicar uma conexão com a espiritualidade dos Fariseus do século XXI.
Nossas igrejas são frequentadas por um grupo que  vai às reuniões não porque entendam ser o mínimo que possam fazer em gratidão por tudo o que receberam de Deus, mas para lá se dirigem contrariadas, amarguradas e oprimidas. Tal qual os Fariseus da época de Jesus são crentes escravos, religiosos e desprovidos da alegria no servir.

Gospel Prime

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

"SEU" MATEUS DA CANA QUEBRADA

Mt. 12: 15-21 (De preferência leia todo o capítulo e também o texto de Isaías mencionado por Mateus)

Mateus está olhando para Jesus. No caminho acontece tudo. Milagres e folhas se misturam na passagem Daquele que é, mas que não pode ser reconhecido: aquilo não era conhecido. Só se abriria por revelação. Mateus vê que as pessoas quando encontravam com Jesus sabiam que tinham encontrado com Deus no homem e o homem em Deus em total plenitude. Afinal, aí não há nenhuma polaridade: Deus não é um pólo e o homem outro. Deus é! e o homem é, Nele! Assim, as pessoas saíam familiarizadas com Deus no homem e o homem em Deus – fosse para o bem, fosse para o mal. Os quebrados, estilhaçados, moídos, triturados, comidos, tragados, enganados, aflitos, inseguros, culpados, incorrigíveis, os aparentemente pedrados, os quase mortos e até os mortos, levantavam-se diante Dele; fosse para o bem, fosse para o mal. Para o bem deles e para o mal daqueles que não gostam de cura.

Mateus percebeu que os piores doentes são os que não gostam de cura. Ele fora vítima deles. Sua profissão de tantos anos – coletor de impostos – não o recomendava a não ser entre os picaretas e os políticos. Havia, sobretudo, os sãos. Os absolutamente certos e os literalmente rígidos. Esses eram sadios e por isto não gostavam de cura. Faziam de tudo para que a bondade de Deus não se espalhasse. Era perigoso. Tiraria o poder de suas mãos. Os tiraria de qualquer centro de gravidade que julgassem possuir. Ninguém se sentia mais ameaçado por Jesus que esse pessoal. Eles mesmos, que haviam sido os mantenedores das doenças dos outros apenas para poderem exercer o poder de sua suposta sanidade. Eles é que odiavam cura, é claro. Cura para eles era sinônimo de clonagem, de cooptação ao ser de um outro como seu modelo divino.

Mateus sabia que Jesus fazia o contrário. “Tal não é assim entre vós...” – ensinava Ele. E demonstrava que tal não era assim no Reino de Deus que Ele mesmo encarnava. Mateus via o Verbo tratando as pessoas e aplicando a Palavra do jeito que aplicava. Para o coletor de impostos Mateus, era apenas uma questão de ler a vida. Jesus era o cumprimento do sonho de todos os profetas e era a realização de todo o bem prometido. Não é por nada... pois é por tudo, que ele recorre a Isaías a fim de descrever o que cabia da Escritura a fim de ilustrar o seu próprio cumprimento: Eis aí o meu Servo... ele não gritará nas praças e não contenderá; não esmaga a cana quebrada e nem apaga a torcida que fumega. No seu nome esperarão os brasileiros, os latino-americanos, os americanos, os russos, os portugueses e os japoneses – e, também, todas as nações da terra, unidas ou não às Nações Unidas – pois Ele será salvação até os confins da terra. No seu nome esperarão até os brasileiros” – teria ele dito assim, se fosse assim que estivesse escrito, apesar de ser isto que está dito para nós hoje naquele texto da Escritura, do mesmo modo que esteve para Mateus.

Mateus não foi literal ao citar Isaías 42:1-4. Apenas disse aos que o leriam aquilo que significou para ele ver o que via, e como aquilo era o cumprimento da própria profecia. Mas não deixou de dizer o que estava dito com o modo como precisava ser dito em seus dias. Isto é ser literal com a Palavra sem ser, necessariamente, literal com o texto. O texto só é sagrado porque é verdade! Portanto, não é a letra que vivifica e não é o espírito que mata. É o contrário. O que interessava é que Mateus via como saíam de diante de Jesus aqueles que em desespero O buscavam. Já tinha visto que Jesus olhava para todos com o mesmo amor e que para todos dirigia a Palavra conforme o coração carecia – nem sempre um agrado, mas sempre o bem. E os milagres se misturavam às folhas de todas as estações e se deixavam plantar, literalmente, em qualquer quintal.

Jesus não veio para contender. A Verdade fala de si e por si mesma. Em verdade se promulgará o direito – diz o mesmo texto em Isaías. Ele veio para todos, mas se deixa especialmente achar pelos membros dos grupos chamados por Mateus e Isaías de Os Cana-Quebrada, Associação das Torcidas-Que-Fumegam e Movimento-da-Verdade-Promulgada-Como-Direito.

Mateus sabia mais do que dava para explicar. Creu e nos ajudou a crer. Tudo o que ele disse acerca de Jesus era verdade.

Este é só o meu jeito de dizer a mesma coisa.

Caio

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O debate é importante?

O meio evangelical nacional tem visto, nos últimos meses, um crescimento significativo de debates. São muitos, em várias frentes. Com “frentes”, refiro-me a grupos, nos quais há sempre os mais dispostos a exercerem seu direito de conversar, opinar, explicar, convencer.
Há quem veja os crescentes debates com maus olhos; pensam que o debate, em si, é algo ruim, pois necessariamente leva à desunião. Particularmente, discordo deste ponto de vista, mas reconheço que há alguns pontos que precisam ser vistos por aqueles que se propõem a um bom e salutar debate.

1 – Debate não é mera tentativa de convencimento.

É claro que aqui me refiro ao debate nos moldes mais nobres, ideais. Em todo o debate, normalmente, tenta-se convencer o(s) interlocutor(es) ou a audiência. Mas, se estamos sinceramente buscando parâmetros verdadeiros, nosso alvo deve ser dialético, e não meramente retórico ou o que é pior, sofístico.
O debate dialético era, digamos, mais “bem visto” entre os gregos, como tarefa filosófica nobre, pois seu objetivo é a busca da verdade através da investigação racional e, obviamente, por meio do diálogo. A retórica por sua vez busca o convencimento, porém, como defenderia o filósofo grego Aristóteles, não pelo convencimento em si, mas como meio e melhor se instrumentalizar a defesa da verdade. Já a sofística, não: aqui, a palavra denota esperteza, jogo de palavras com o intuito de se vencer um debate sem necessariamente ter razão.

2 – Debate não é simples disputa de conhecimentos.

Eis um ponto central para os que gostam de debater: quem pensa em “medir” conhecimento através da prática do debate mostra, de antemão, que não estão prontos para debater. A questão num debate não é e nuca foi “quem sabe mais”, mas se o que é exposto alinha-se melhor ou não à realidade.

Um bom debatedor não sabe tudo, pois isto é impossível. Mas tem convicção (e boas razões) para crer que o que defende é, no mínimo, plausível. Um bom debatedor não está preocupado se não sabe de determinado ponto sobre um assunto que vem à tona num debate; mas mostra maestria em elencar pontos fortes e fracos suscetíveis à discussão, reconhecendo-os tanto na tese que defende quanto na que acusa.

3 – Debate não é uma porta para a carnalidade.

A Bíblia diz que podemos até nos irar, mas não pecar (Ef. 4:26). Isto é muito sério. A divergência de ideias deve ser tratada, sempre, com maturidade, humildade, espírito conciliador. Muitos, por causa de seu mau testemunho (notório ou não), tornam-se uma vergonha para o Evangelho, pois querem posar de polemistas ou apologistas, mas, no mais das vezes, denotam apenas a carnalidade que lhes era latente.
É fácil identificar um debatedor carnal: normalmente, o sarcasmo é sua maior arma; cita outros sem parar (o chamado “argumento da autoridade”, ou ad verecundiam é profuso em sua boca); não é original e o sarcasmo sobre o qual falei, geralmente esconde ignorância e soberba. Fuja desse tipo.

4 – Debate não se resume ao confronto de “opiniões”.

Em grego, “opinião” é doxa, que por sua vez é o contrário de conhecimento. Opinião está no mais baixo âmbito filosófico. É a área das preferências e gostos pessoais, sobre os quais apenas os seus donos têm ingerência. É como debater por causa de times de futebol. Responda sinceramente: você já viu alguém, torcedor, deixar de torcer por determinado time por causa de um debate sobre o tema? Pois é.
As opiniões pessoais são importantes, mas não devem ser confundidas com conhecimento. Muito, mas muito mesmo do que se “debate” no meio evangelical nacional, apesar de às vezes ter uma certa roupagem prolixa, com termos técnicos e certo apelo histórico, é, contudo, muito mais fruto de paixão ideológica do que da atividade exaustiva de se exaurir determinado conteúdo. O que é lamentável.

Gospel Prime

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

É pecado cortar ou pintar o cabelo?

Vamos por parte, primeiramente com relação ao cortar o cabelo. Jesus nunca falou sobre esta questão.
Em Mateus 10.30 se diz: “E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.” O que o Mestre queria enfatizar aqui era o cuidado de Deus para conosco, a ponto de saber quantos fios de cabelos temos em nossas cabeças. Utilizar este versículo como justificativa para proibir o corte de cabelo é no mínimo um completo desconhecimento hermenêutico. E tem mais, se cortarmos o cabelo, o número de fios continuará o mesmo, embora mais curtos, fazendo, assim, sucumbir esta teoria.
Em I Coríntios 11.4-6; 15
“Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça. Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu…
 …Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu.”
 Corinto era uma cidade portuária cosmopolita, ou seja para ela afluíam pessoas de quase todos os países do mundo antigo conhecido, principalmente gregos, romanos e judeus. Havia também na cidade uma miscigenação muito grande de raças e culturas, bem como religiões.
A cidade fornecia um sem número de opções de divertimentos e manifestações culturais. Havia lá um anfiteatro construído pelos Romanos que comportava aproximadamente 20.000 espectadores. O famoso templo de Afrodite, a deusa da sensualidade, lascívia e com a prostituição cultural alojava  mais de 1.000 prostitutas.
Como visto, a cultura de Corinto não tinha um viés judaico, mas grega e era muito influenciada pelos viajantes romanos que lá passavam. Sendo assim, a forma dos coríntios se vestirem, comerem e de agirem era completamente diferente dos judeus.

Gospel Prime

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL ERA UMA ARMADILHA?

Meu amado amigo: A Árvore da Vida será dada ao que Vencer! Responderei às suas questões dentro de seu e-mail. Volto ao final.

Original Message
From: A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL ERA UMA ARMADILHA?
Sent: Thursday, April 15, 2004 7:55 AM
Subject: A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL ERA UMA ARMAdilha?

Rev. Caio,
O site continua maravilhoso; é uma ambiência de Graça e profundo compromisso com a Palavra que sai da boca de Deus. Gostaria que o senhor pudesse me responder algo que ouvi do meu pastor.
Ouvi um sermão dele em que ele dizia que a árvore do conhecimento do bem e do mal tinha algo como que um fruto envenenado; tal qual a maçã que a Branca de Neve comeu. Minha pergunta é:

1-      Por que Deus colocaria uma armadilha no jardim para contribuir com a desgraça humana?

Resposta: Deus a ninguém tenta. Cada um é tentado pela sua própria cobiça. Todavia, não haveria liberdade se não pudesse haver a “escolha”.

Liberdade sem escolha é tirania. Aquela “árvore” era uma porta de escolha. E não havia nela uma droga especial, um alterador de consciência. Não! A droga nunca esteve fora do coração, mas na farmácia da alma.

A “árvore” poderia ser até um pé de saputi... Que o resultado seria o mesmo. A Árvore do conhecimento do bem e do mal tem na “árvore” a sua simbolização; pois, de fato, o fruto dela só viraria fruto de morte se comido com medo e culpa.

Se Adão e sua mulher tivessem comido sem saber que aquela era a “árvore”, nada lhes teria acontecido; apenas voltariam para “casa-jardim” de barriga cheia.

Portanto, não foi “árvore” que gerou a “queda”, mas a transgressão; e isto aconteceria até com manga-rosa.

2-      Seria o caso de que aquela árvore e seu fruto poderiam em algum tempo virem a suprir o homem?

Resposta: Ora, seja para o bem, seja para o mal, nós comemos do fruto dessa “árvore” todos os dias. O fato é que houve a Queda. Mas, misteriosamente, ela aconteceu, pela Graça do Cordeiro imolado antes da Fundação do Mundo, como uma queda para cima.

Afinal, se o Éden fosse o ideal da existência, não estaríamos indo para a Nova Jerusalém; mas sim para o Novo Éden.

Nada disso tira a responsabilidade do homem; porém, tudo isto nos mostra que todas as coisas concorrem conjuntamente para o bem dos que amam a Deus; até a Queda.

Com todos os percalços desta existência caída, eu ainda prefiro milhões de vezes ser quem eu sou — caído e redimido na Graça — do que estar vivendo na inocência semi-consciente do Éden.

Mas isto falo por mim. Há, todavia, quem goste mais da infância que da vida adulta. Eu gosto de todas as fases que vivi; mas não gostaria de voltar ao Jardim da Infância.

3-      A Bíblia diz em Gênesis 2:9 que o Senhor fez brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida, e a árvore do conhecimento do bem e do mal. O argumento do pastor é o seguinte: Somente a árvore do conhecimento do bem e do mal não deu fruto bom.

A minha dúvida é se é de fato possível que Deus tenha armado essa para o homem. Sei que Seus caminhos são mais altos que os nossos caminhos; mas, porque Ele plantaria com Suas mãos uma árvore que poderia levar o homem à morte?

Resposta: O fruto não era mágico. O coração é que produziu, pela culpa, a droga.

Espero sua palavra. Que Deus continue a abençoar toda a sua vida. Bom mesmo é comer da árvore da vida.

Paz!
___________________________________

Continuação da resposta:



A fé cristã ainda não se deu conta de que o Éden virou uma neurose na cabeça da humanidade. Ou é uma fixação perfeccionista, ou é uma nostalgia culposa... Mas este é o sentir cristão acerca do Éden.

Acerca do Éden como neurose eu escrevi, faz tempo, aqui no site, o seguinte:

Adão abriu os olhos e se viu Adão. Nascia a consciência de si mesmo?

Adão abriu os olhos e viu a si mesmo separado de Deus. Nascia o quê?

Nunca fui não-caído. Por isso não posso responder a nenhuma das questões acima. Para mim, pelo menos, não há como medir o que vejo a partir do que não vivi e nem conheci.

“Em pecado me concebeu minha mãe...” Sou caído. Vejo tudo desse lugar. Tudo que vejo, vejo apenas como vejo. Mas não sei se o que vejo é o que é. Daí eu ter que também andar pela fé.

Não sei quase nada. Mas sei que não dá para voltar ao Éden, pois ele não existe mais. O Éden deixou de ser no único lugar verdadeiro onde ele sempre existiu: o olhar-ser do homem.

Tudo muda em volta quando a gente muda dentro. É assim hoje porque passou a ser no Éden interior. Tudo é assim. E não estou no Éden!

Por que, então, sinto tanto sua nostalgia em mim? Será que ele me persegue? Não conheço nenhum Éden, ao mesmo tempo em que sou perseguido pelas suas memórias.

Por essa razão é que nunca mais se pode negar o que se perdeu, e também não se pode voltar ao que ficou para trás.

O Éden perdido é algo como o tempo: uma vez perdido vira sempre passado e nunca deixa de ser memória!

Assim, o Éden nunca vai embora. Insiste. Faz-se lembrar. Sugere a si mesmo como perda. Nós saímos dele e ele não saiu de nós como fantasia e culpa.

Eu acho que sei disso. Você também. Então, por que... o Éden?

Um acesso de pragmatismo me assola agora.

Quero encurtar este texto.

Eu grito: "Todos sabemos que somos caídos e todos sabemos o que é pecado, apesar de nunca termos vivido no Éden!"

"Como?" — indagam. "Pecado precisa de definição!" — afirmam.

Mas minha certeza é outra. Eu creio que Pecado não precisa de definição. Somente o indivíduo pode examinar a si mesmo a fim de discernir seu próprio pecado.

Ora, isto seria o equivalente a se enxergar cada vez mais, incluindo a admissão da existência de horas nas quais pensamos de nós para nós mesmos que não estamos pecando — pecando, assim, conforme a presunção de não sermos nós mesmos pecado, em nossa latente e patente ambigüidade em tudo, pelo menos ao nível da autopercepção.

A gente cresce. Cheguei ao estágio no qual o Éden vai virando História, e deixa de ser como lugar-não-lugar em nós. Agora é Passado. Nem me lembro dele. Mas ainda sinto a necessidade de me comportar conforme a impressão de sua idealização.

Então me julgo. Algumas vezes a meu favor, outras contra.

Os “acordos” da comunidade passam a ser o que há de mais próximo do Éden, para alguns, e para uns poucos, aparece como desespero de que quanto mais eu me aproximo, mais distante eu fico. Esse é o julgamento dos gentios que não têm lei, de acordo com Paulo!

Bem, eu já ouvi o Evangelho. Não sou mais “gentio”, no sentido pejorativo. Nasceu em mim uma nova criatura — digo de mim a mim mesmo.

Mas se é assim, por que não consigo voltar ao Éden? Mesmo conhecendo o Evangelho, por que não experimento as maravilhas do Éden?

Por que me sinto fora dele toda vez que abro a janela ou sempre que olho dentro de mim mesmo?

Nossa consciência nos acusa e nos defende — pelo menos de nós para nós. Isso é consciência da relatividade de tudo. Só Deus é Absoluto. Eu só enxergo a partir do mais-que-relativo.

Meu juízo absolutiza quase tudo para todos e relativiza quase tudo para mim mesmo, dependendo de onde eu estou como ser.

Todavia, as piores faltas do ser são sempre aquelas que sobreviveram tenazmente como “nossas características relativas de identidade”. E damos a elas autorização para rugirem para dentro.

Desse modo, garantimos que elas não existam apenas porque ainda não se exacerbaram como caricaturas momentâneas de nossa realidade interior do lado de fora.

"É para esse lugar de encurralamento que Jesus nos leva primeiro?" — indagamos nós.

Não sei com você, só sei que comigo foi-é assim!

Ele me abismou na consciência de minha perdição sem a Graça!

Ele me convenceu e me convence de pecado!

Ele me desesperou ante a constatação de que eu precisava e sempre precisarei do meu Salvador!

Mas me fez ver que nem sabendo disso eu conseguiria voltar ao Éden. O Éden continuava no passado e eu não tinha e nem tenho como voltar para ele.

Então fui me acostumando! Recebi meu Salvador. Seu nome é Jesus. Confessei que recebi perdão em Sua Graça. No início, a Graça me soava como um elogio.

Depois de um tempo, como “um recurso”.

Então, virou algo que existe. Mas que, de preferência, a gente nunca deveria precisar em relação ao nosso próximo, pois perdemos a fé nos outros na mesma medida em que nos julgamos certos de nós mesmos.

Como “somos bons”, garantimos Graça para os outros. Mas já não preciso tanto desse “recurso”. Nesse ponto dizem que viramos “santos”.

O Éden, todavia, permanece no passado. E nós não chegamos a lugar nenhum. Há apenas um Paraíso do é-futuro-futuro-é, pois eis que para mim ainda não chegou, mas já é! “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” — ouviu o ladrão.

Agora eu sabia que o Paraíso não estava ao alcance das mãos ou dos sentidos animais. O Paraíso pertencia ao Celestial.

Mas mesmo sabendo disso, eu agora ainda não me nego a continuar buscando o Éden na terra, ou pelo menos na Psicologia.

Então mergulho em depressão. O Éden virou depressão! Não me aposso do Paraíso — já passei da morte para a vida — e nem consigo voltar ao lugar de onde saí. E pior: não consigo sair do lugar onde não estou mais, visto que dele eu já fui expulso.

"Meus Deus, qual é o meu problema?" — indago-me outra vez, em outra fase da existência.

"O problema é que a Graça, agora, já não significa um elogio para você!" — creio que foi isto que ouvi como Voz em mim.

É verdade. No início, precisar da Graça me honrava, me parecia adequado e verdadeiro. Agora, no entanto, tenho que honrá-la.

Antes, era o máximo ser dependente dela. Agora, isso me é vergonhoso! A Lei perdeu o seu papel de “aio” para me levar a Cristo. E depois que eu me-tornei-em Cristo, a Graça virou “aio” para me abandonar outra vez nas mãos da Lei?

Pois é assim que os cristãos vivem: na lei.

Ora, toda a Lei foi sepultada em Cristo, a começar da primeira Lei: “... desse fruto não comereis...” Afinal, se fosse de outra forma, eu não conseguia entender a razão da viagem. Pareceria a estrada Manaus-Manaus: era apenas uma voltinha!

A leitura da epístola aos Gálatas me põe outra vez no Caminho! Olho de novo em volta, e vejo que o que operou essa des-conversão da Graça à Lei. Este é o adubo da morte na alma dos homens: a culpa e a lei.

Enquanto a Lei for o “aio” dos cristãos, continuaremos na ilusão de que podemos voltar ao Éden, ou seja, voltar para o lugar em que haveríamos de obedecer sem transgredir, e, portanto, sendo capazes de manter nosso próprio estado de inculpabilidade.

Mas eu sei que não consigo. Estou teológica e filosoficamente convencido disso.

Então, por que no início era a Graça e agora é o Tempo de Casa? Como se saber muito tempo da Graça virasse um direito adquirido!

Outra vez o Éden me persegue. Afinal, o Éden é no tempo, e o tempo só existe no Passado. E eu não consigo voltar para ele. Entretanto, o somo como crédito meu.

Mas se é crédito, não é Graça; e se é Graça, não é meu o crédito.

Desespero-me. O que faço? É mas não é? Como? Que lugar é esse?

É o Éden! — eu sei. Quando eu caí, o Éden caiu em mim! Fui expulso... e ele saiu comigo; perdido, nostálgico, inachável, implacavelmente passado e desgraçadamente presente.

É Passado Hoje!

Vou esperar a eternidade. É assim mesmo. Com você não seria diferente! — tento convencer-me. Então descubro que o problema é o passado.

Claro! O problema é o passado! Sei sobre isto. Afinal, Paulo diz que nem morte nem vida, nem altura nem profundidade, nem coisas do presente nem do porvir e nem mesmo qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus! Mas não menciona as coisas do passado!

E por quê? — me pergunto. É porque é nas obras mortas — portanto, no passado — onde vive o “espírito da separação” do amor de Deus!

Claro, é o Éden! — exclamo para mim mesmo. “As culpas, as fobias, os traumas e as autopunições alimentam-se do passado” — leio num texto que escrevi para mim mesmo.

Então descanso. Sinto-me aliviado. Eu creio. Confesso. Hoje é. Tem que ser vivido. É inapropriável como tempo. Quando chega, já não é.

E o futuro, na linearidade de Cronos, existe apenas como o que será, mas que também ainda não é.

De outro lado o futuro já é, pois, para Deus, tudo é; assim como para Ele todos vivem. Eu Sou — é o Seu Nome!

Viram? Eu creio. Mas e o Éden?

Não! Para mim, chega de Éden. O Éden é o problema.

O problema? — essa afirmação me suscita uma questão. Sim! pois o problema é que mesmo quando Deus diz que o passado está perdoado — que o Éden está perdoado —, ainda assim, a maioria não se perdoa por ter vivido, ter errado, ter se enganado; ser, sem jamais ter sido do Éden.

E por quê? É que a maioria gostaria de ter vivido, acertado sempre e tido bom êxito em tudo. Nós queríamos que o Éden nunca tivesse existido como lugar perdido.

Alguma coisa errada com isso? Sim e não!

Não, porque ninguém tem que buscar o mal. Nossa consciência se alimenta da busca do que é bom!

Sim, porque na maioria das vezes a gente só se arrepende do mal porque ele esvaziou o nosso arquivo de créditos para a barganha com Deus e com os homens.

Não adianta teologizar. A guerra milita em minha carne.

O problema não é o Éden. O problema sou eu. Por isso é que não posso negar a possibilidade mais que presente, do engano em mim. Seria uma irrealidade com minha condição de ser caído.

Penso: "Quem não tem autopercepção de sua própria Queda jamais será totalmente aberto para a significação da Graça!" É no e do passado que o diabo vive! A Antiga Serpente!

Todavia, eu creio, o Filho de Eva pisou a cabeça da Antiga Serpente. Mas para onde vou desse ponto em diante?

Concluo que a Antiga Serpente vive na mesma medida em que o Antigo Éden vive em mim. Ela não tem que fazer parte do meu Hoje. Ela é do Éden. Não serei o Velho Jardim da Antiga Serpente. Tenho outra vez que decidir. O passado é o problema. A Serpente se alimenta dele.

Mas e daí? Tenho que fazer alguma coisa? Não consigo voltar e não consigo me sentar para descansar. Para onde irei?

“Só tu tens as palavras da vida eterna” — brada-me um de meus melhores amigos, um chamado Pedro. Nada pode me separar do amor de Deus!

Nem eu mesmo? Sim e não!

Não, apenas porque a Antiga Serpente é, entre as criaturas, mais uma das que não tem poder para nos separar do amor de Deus.

Sim, porque nós somos as criaturas que podemos não crer na inseparabilidade desse amor, especialmente em razão do passado e da culpa!

As obras mortas são as que mais matam. A morte vem do Éden! Mas eu agora sou filho do Dia Chamado Hoje. As distâncias, a solidão, o abismo e até os céus não podem me afastar do amor de Deus. O passado não é incluído!

O passado não pode nos separar do amor de Deus, mas pode nos separar da experiência do amor de Deus! O passado pode me roubar o momento, pode não permitir o Dia Chamado Hoje de me fazer bem. Afinal, basta a cada dia o seu próprio mal.

O amor de Deus só é inaproveitado como Graça, em razão das culpas e justiças próprias que viraram neurose, fobia, trauma e legalismo paralisante e autopunitivo! — e que procedam do Éden, portanto, do passado. O Éden agora é neurose. Por isso é que Hoje é o dia de salvação.

Tudo isso apenas para terminar sem hesitação dizendo o seguinte: Não brinque de esconde-esconde com o passado. Você vai viver expulsa-mente preso no Éden! É dele que procedem os demônios que nos atormentam hoje!

Assim, uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam (incluindo o Éden), prossigo para as que adiante de mim estão! A nova criatura só será nova se não tiver no passado a finalidade de sua existência.

As coisas antigas já passaram, mesmo as velharias do dia de ontem, 24 horas antes de eu haver escrito esse texto. Tudo virou o não-Éden, pois, eis que tudo se fez Novo.

Quer dizer que o que vivi não foi vivido?

Não! Quer dizer que já foi... “Fui” — é a gíria da moçada! E se eu não fui, não sou!

O que me resta? Resta-me tudo. Resta-me ser em Cristo. Ele é meu criador. Não é um lugar. Só se é filho da eternidade quando o Éden perde seu poder de lugar e a eternidade assume seu não-lugar, que é sua maior realidade em nós, visto que ela habita o coração.

O primeiro Éden era da terra. Transmudou-se como lugar de culpa para a alma. Virou campo de batalha para a religião e laboratório para a filosofia. Existiu muito tempo como mito, depois como arquétipo psicológico, e então ganhou status de Portal.

Mas o Velho Homem continua aqui sendo tentado pela Antiga Serpente. E esse Adão que sou eu, não consegue esquecer o Éden por completo.

Só que agora eu sei disso. Sei disso pela fé. O Éden terrestre desse corpo se corrompe. O Éden interior é que se renova de dia em dia, se não houver medo. Primeiro semeia-se corpo corruptível. Então se colhe o incorruptível. Primeiro vem o que é terreno. Depois é que vem o que é celestial.

"Insensatos, não sabeis que tudo obedece a um ciclo?" — nos provoca Paulo.

É, eu sei. Primeiro tem que vir o Éden. Depois é que vem a Nova Jerusalém. O Éden foi a semente do que haveria de vir. Assim, o que eu chamo de Queda era inevitável. Daí o Cordeiro de Deus haver sido imolado antes que houvesse Éden.

O mais é uma seqüência: aos que de antemão conheceu, a esses predestinou; e aos que predestinou, a esses chamou; e aos que chamou, a esses justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

É a invasão do desígnio da eternidade rasgando a criação do tempo e nos levando junto para o lugar de onde viemos: o amor de Deus.

Que diremos, pois, à vista dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Se você desejar, eu recomeço. Mas você já sabe o fim. “Eu sou o princípio e o fim” — disse Aquele que é!



Caio

(Escrito em 2003)